A MONJA É POP

A MONJA É POP

Monja Coen se tornou um fenômeno na literatura e seus ensinamentos mostram como a filosofa zen budista pode ajudar a encarar melhor os problemas do dia a dia e a ser mais feliz – Por Roberta Braga

Autora de livros de sucesso como Zen para distraídos e A monja e o professor, apresentadora de um programa de rádio e palestrante, Cláudia Dias Baptista de Sousa, mais conhecida como monja Coen – nome que adotou depois de se converter à tradição budista japonesa – é um fenômeno dentro do zen budismo. Antes de decidir pela vida religiosa, trabalhou como repórter em jornais de São Paulo. Mas seu lado espiritual falou mais alto. Primeiro, mudou-se para a Califórnia, para aprender mais sobre as práticas de meditação. Depois, mudou-se para o Japão, onde ficou por 12 anos estudando a filosofia zen budista para, então, voltar ao Brasil, em 1995, trazendo os ensinamentos que aprendeu e vivenciou por lá.
Aqui, tornou-se a primeira mulher e a primeira monja não japonesa a presidir a Federação das Seitas Budistas do Brasil. Foi a fundadora da Comunidade Zen Budista do Brasil e é conhecida por suas palestras e diálogos inter-religiosos. Em entrevista exclusiva para a
LER&CIA, monja Coen falou sobre meditação, ética, suas obras e felicidade.

LER&CIA | O que é a meditação e como ela pode nos ajudar?
MONJA COEN | A palavra zen quer dizer meditação, não é relaxamento, não é bem-estar. Meditar não significa bem-estar, e sim a procura da sabedoria. E isso você encontra pela meditação, que é um dos caminhos. A procura da sabedoria, que nós dizemos que é o portal principal, não é um caminho fácil porque temos um guardião que protege o que é mais sagrado e mais precioso, que é o sábio. E você tem que atravessar isso. Não é porque eu vou meditar que eu vou ficar de boa com o mundo, vou ficar relaxado, vai acabar meu estresse. Na verdade, pode até aumentar o estresse em certos momentos. Você vai encontrar aquilo que está em você, que muitas vezes te trava, que é para você saber atravessar e saber destravar. Então, a meditação é um processo de autoconhecimento, no qual você vai sair da sua história pessoal; você tem que se perceber como parte. Eu me percebo interconectada com tudo, com as folhas que estão caindo, a mata, o chão, o cimento, o plástico; tudo faz parte da minha vida.

O primeiro passo para alcançar esse estado é parar e respirar?
As práticas de respiração podem ajudar muito, sim. Com uma postura correta e uma posição do corpo adequada, a pessoa pode ter uma respiração consciente. E isso é uma
chave de ouro que serve para tudo. Quando ficamos estressados, nervosos, nossa respiração também altera. Então, se você consegue usar as práticas para voltar a uma respiração natural, todo o seu estado emocional também irá se modificar.

Tanto para meditação, quanto para a respiração correta, é preciso insistir?
Não precisa querer forçar uma situação. Primeiro devemos observar o que está acontecendo conosco. Às vezes, ficamos ainda mais ansiosos durantes as práticas, é algo natural.
Mas aí é preciso saber que não somos controlados pelas emoções, e que nós somos capazes de direcionar e modicar nosso estado através da respiração. Isso vem com o tempo e com a prática.

Um dos seus livros que faz mais sucesso é o Zen para distraídos, no qual você fala sobre todos que vivem em um mundo acelerado. Como esse cenário impacta na nossa vida?

Hoje, temos muitos compromissos e somos bombardeados por informações e estímulos o tempo todo, seja da mídia, das redes sociais, da televisão e diversas outras fontes. Então,
isso dificulta que mantenhamos o foco em tarefas simples. Em alguns casos chega a ser uma tarefa impossível. O livro traz práticas e conceitos do budismo que podem ajudar
a melhorar nossa concentração e o nosso bem-estar.

A tecnologia tem papel importante nessa falta de concentração?
Hoje temos esse cenário de tecnologia, das redes sociais, que nos provocam muito. Tem tanta notícia que eu quero estar sempre sabendo o que está acontecendo. Eu tive muito isso no começo, mas cansei, agora se eu não souber tudo bem. Então, a tecnologia é como um brinquedo novo. Nós estamos descobrindo a tecnologia, aprendendo como podemos usá-la, mas se não tomarmos cuidado, nós é que seremos usados por ela. Pais e adultos têm que dar limites aos filhos e a si mesmos, porque os pequenos copiam o que o pai está fazendo. Um pai que tem três celulares e na hora do almoço está respondendo tudo isso e não conversa com ninguém, vai fazer com que o filho repita o padrão.

A procura da sabedoria, que nós dizemos que é o portal principal, não é um caminho fácil porque temos um guardião que protege o que é mais sagrado e mais precioso, que é o sábio.

Esse ano você lançou a obra A monja e o professor, em parceria com o filósofo Clóvis de Barros. Como foi essa conversa?
Eu gostei muito de falar com o professor Clóvis, ele é uma pessoa muito inteligente, brilhante e estudiosa. Entre todas as coisas, ele escreveu um outro livro que chama Shinsetsu (Editora Planeta), que fala sobre gentileza. Ele conta que encontrou isso em um avião, quando um menino lhe perguntou se poderia colocar o banco para trás. Então, ele fala sobre como é bom viver nessa delicadeza de respeito ao outro. E eu senti dele muita coerência o tempo todo: o que ele aprende, ele coloca em prática. É ética é isso, é você viver a partir dos seus valores. O livro traz uma conversa nossa sobre ética, felicidade e a necessidade de se ter um propósito. Uma questão que ele fala, que eu gosto muito, é sobre aumentar a sua potência e fazer com excelência as coisas que você faz, mas sempre através de princípios éticos.

E como são essas conversas que você faz com filósofos e pensadores contemporâneos, como Clóvis de Barros, Leandro Karnal e Mario Sergio Cortella?
O professor Leandro Karnal eu conheci há mais de 10 anos em um evento na Universidade de Campinas, quando um aluno me disse que tinha um professor que falava de forma semelhante a mim. Eu pesquisei na internet e fiquei encantada, que homem inteligente, agradável. Quando a editora me perguntou se eu faria uma conversa com ele para virar um livro, foi uma alegria. Do Clóvis a ideia também veio de uma editora. Eu o conheci uma vez que ele fez uma palestra antes da minha e pensei “nossa, homem intenso, que coisa forte, bonita”. Com o professor Cortella foi a mesma coisa, a conversa com ele é uma aula, eu fiquei abismada.

Então, é muito bom poder conversar com pessoas inteligentes, que são professores, que respeito e considero muito. Para mim, essas conversas são, acima de tudo, um aprendizado. Acho que eles têm muito mais a dar do que eu, mas podemos trocar um pouco dentro da minha visão e da visão tradicional budista japonesa, fazendo uma ponte com as filosofias ocidentais. 

Um dos temas que sempre está presente nas suas conversas, e que é uma busca na nossa sociedade, é a felicidade. Como você a define?
A palavra “felicidade” tem a mesma origem da palavra “fértil”, que vem de frutífero. Eu acho que somos mais felizes quando somos capazes de partilhar com alguém alguma coisa e quando somos capazes de perceber o outro e a sua necessidade verdadeira. A gente confunde um pouquinho felicidade com necessidade. Se me falta alguma coisa eu vou ao mercado e compro, vou ao shopping e compro, mas sempre fica um certo vazio. O vazio da existência é importante porque é o “eu” que está se renovando, que não se satisfaz e, por isso, a gente continua vivo e perguntando coisas. No budismo, chamamos de estado de nirvana ou plenitude, que depende diretamente de sabedoria. Não é um estado abobalhado no mundo, não é um estado de ficar “contentinho”, rindo. Contentamento da existência faz parte, mas não é só isso. Felicidade não é só estar rindo, achando que tudo está bom. É entrar em contato com a sabedoria perfeita. Dentro das virtudes, a maior delas é a sabedoria, e o maior vício é a ignorância. No budismo, falamos do que liberta o ser humano e a felicidade é libertação das amarras, dos preconceitos – e essa libertação acontece através da sabedoria. E sabedoria é treino, é prática, é insistência.

Eu acho que somos mais felizes quando somos capazes de partilhar com alguém alguma coisa e quando somos capazes de perceber o outro e a sua necessidade verdadeira.

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