OS BICHOS, A UTOPIA E A DISTOPIA

OS BICHOS, A UTOPIA E A DISTOPIA

Escrita por George Orwell durante a 2ª Guerra Mundial, A revolução dos bichos é uma fábula que discute a busca pelo poder. Publicado em 1945, narra a história da revolta dos animais de uma fazenda contra seus donos – a revolução é liderada pelos porcos Napoleão e Bola de Neve. A obra traz uma metáfora ao regime comunista de Stalin e causou mal-estar na época do lançamento, marcando desde então sua importância política, social e literária.

A analogia trazida no livro não preza pela sutileza: Napoleão é Stalin; Bola-de-Neve, Trotsky. Os porcos buscam tomar o poder de seus donos humanos e criar uma sociedade utópica e igualitária. Os acontecimentos narrados trazem referências e uma crítica pesada aos fatos políticos e sociais da época. Cego pelo poder, Napoleão acaba afastando Bola de Neve, muda as regras e estabelece, enfim, uma ditadura. O estilo literário – a literatura distópica – passeia entre as fábulas morais e a sátira política e, de forma lúdica e criativa, aborda assuntos como poder, corrupção, desigualdade e crueldade – observados nos animais, mas representando as fraquezas humanas.

George Orwell é o pseudônimo do escritor Eric Arthur Blair. Nasceu na Índia Britânica, em 1903, tornou-se jornalista, crítico e romancista. Ficou conhecido por demonstrar em seus textos sua apurada consciência social e trazer críticas pesadas ao autoritarismo.

– por que ler? –

Para o professor e doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jian Marcel Zimmerman, trata-se de uma obra que consegue associar conteúdo intelectual relevante com a ludicidade da atividade de leitura. “Há um equilíbrio entre peso e leveza, é uma leitura agradável que desperta reflexões importantes”.

– temas abordados –

A União Soviética após a revolução de 1917, com a ascensão de Josef Stalin e da ditadura burocrática e totalitária, é o tema mais evidente, segundo observa Jian Marcel Zimmermann. “Entretanto, em virtude da maestria com que a obra foi composta, é possível detectar incontáveis temas – como as estratégias discursivas do ser humano, relações de poder etc – que, sob certo sentido, podem sobrepor-se aos demais.” De acordo com o especialista, a obra tematiza, ainda, um fenômeno que ganha força no cenário contemporâneo, “que é o do ‘apagamento da história’, tão útil a políticas que se utilizam da alienação para atender a seus interesses.”

– literatura distópica –

A distopia é uma corrente filosófica que faz oposição à utopia. Enquanto na utopia o sistema é perfeito e igualitário, na distopia a sociedade é totalitária, autoritária e opressora. A literatura distópica é crítica e satírica e mostra governos tirânicos e ditatoriais. Além de A revolução dos bichos, outras obras marcantes desse estilo são 1984 e Senhor das Moscas. “O processo desenvolvido na narrativa parte do desvelamento de uma situação política opressiva. O narrador criado por Orwell faz uma crítica direcionada e cheia de ironia, utilizando em suas metáforas elementos que são de fácil apreensão para o leitor. Ademais, o texto expõe o descompasso entre o discurso e as ações, a esperança se transforma em decepção, a utopia se transforma em distopia”, observa Jian Marcel Zimmerman.