UMA ENTREVISTA SINCERA DEMAIS PARA SER LIDA RAPIDAMENTE

UMA ENTREVISTA SINCERA DEMAIS PARA SER LIDA RAPIDAMENTE

Você acredita que o Facebook é uma rede social muito superficial? Um grupo de jovens amigos resolveu colocar à prova o potencial literário da internet e se surpreendeu em ver que milhares de pessoas começaram a interagir com seus conteúdos extensos, profundos e poéticos. Até o fechamento desta edição, o coletivo literário Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente contabilizava mais de um milhão de fãs na sua página no Facebook, 263 mil seguidores no Instagram, mais de 970 mil seguidores no Twitter. Além disso, o grupo fechou 2017 comemorando a publicação de textos inéditos em formato de livro.

Em entrevista exclusiva à LER&CIA, eles falam sobre o trabalho, internet e literatura.

Letícia Loureiro de Nazareth
21 anos
Estudante de Letras
Português/Inglês

LER&CIA | Como surgiu a ideia do coletivo Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente? Qual é o principal objetivo?

TCD – Igor | A ideia surgiu de um impasse: o Facebook é realmente uma rede social superficial? Queríamos colocar à prova a ideia de que não conseguiríamos atingir as pessoas com nossos textos. O resultado: mais de um milhão de pessoas não só se identificam, como também começaram projetos pessoais aliando literatura e internet. O objetivo, hoje, é fazer com que as pessoas desmistifiquem a visão de que a literatura está apenas nos livros e oráculos da língua portuguesa; que ela pode habitar outros espaços, vestir outras formas e atingir outro público, de jovens leitores, por exemplo.

LER&CIA | Quem escreve? Como o público pode interagir?

TCD – Letícia | Na equipe escrevem o Igor Pires, a Maria Luiza Moreira e eu, Letícia Loureiro. A Gabriela Barreira é a nossa designer. O público interage através de comentários nos nossos textos no Facebook, nas fotos do Instagram, e nos vídeos do nosso canal no YouTube. Além disso, podem enviar mensagens pela página do Facebook, pelo Instagram e pelo Tumblr. O Twitter é a nossa rede social mais interativa: os leitores enviam muitas menções à página e postam fotos do livro e textos nossos frequentemente. É onde conseguimos conversar mais diretamente com eles.

LER&CIA | Para você, o que significa escrever?

TCD – Letícia | Para mim, escrever é uma forma de desabafo, desde criança: comecei a escrever aos oito anos. Até por ser bem tímida quando era mais nova, foi a melhor maneira que encontrei para me expressar. E sempre foi muito importante pro meu autoconhecimento, para descobrir uma série de características e sentimentos que eu não conheceria tão bem caso não escrevesse sobre eles.

TCD – Igor | Escrever é o que fica depois do mundo causar espanto sobre mim. Ferreira Gullar dizia algo próximo a isso e é a sensação que tenho. Escrever se tornou uma ferramenta de libertação, mas também um instrumento que canaliza minha afetação sobre o mundo e vice-versa.

TCD – Maria Luiza | Eu comecei a escrever quando percebi que eu não tinha muita voz nas minhas relações e passei a interiorizar as coisas que eu tinha a dizer. Depois de um tempo assim, percebi que precisava colocar em algum lugar tudo isso que eu deixava de dizer e comecei a escrever. A escrita foi um escape. É um lugar paralelo onde eu tenho voz.

LER&CIA | De alguma maneira todo esse alcance e sucesso tornou a escrita um peso ou ainda é um prazer? Como isso se tornou parte da rotina de vocês?

TCD – Letícia | Passamos, sim, por momentos de menor inspiração. Mas, como somos três escritores, conseguimos nos revezar. Às vezes um de nós escreve menos e outro escreve mais e consegue administrar melhor as redes sociais. Principalmente o Facebook, onde publicamos os nossos textos maiores. Publicamos ilustrações no Facebook e textos de leitores, o que também ajuda com a manutenção da página e faz com que o processo criativo não se torne exaustivo. Eu passei a escrever com mais frequência quando entrei na equipe. Se tornou parte da minha rotina publicar também trechos menores no Twitter, mas continua sendo um processo agradável, até porque os comentários dos leitores e textos de outras pessoas me inspiram. Quando vejo que não estou inspirada o suficiente para isso, não escrevo.

Igor Pires da Silva
22 anos
Estudante de Comunicação Social

LER&CIA | O sucesso do projeto e aumento do público surpreendeu vocês?

TCD – Letícia | Quando eu comecei a fazer parte da equipe, a página já era grande. Mas hoje, alguns meses depois, crescemos muito. Apesar de já atingirmos muitas pessoas quando comecei a escrever na Textos cruéis demais, a proporção que tudo tomou ainda me surpreende. Eu realmente nunca imaginei que tanta gente leria o que escrevo. Fico muito grata pelos leitores que temos e pelos comentários deles, por ver que podemos ajudar tantas pessoas com o nosso projeto.

TCD – Igor | Ainda assim, é sempre um espanto ver como um texto seu pode circular por tantas pessoas, em tantos ambientes. No final, sinto que é essa a graça de se despir para tanta gente: existe a possibilidade das variadas interpretações, do texto vestir experiências e vivências diferentes.

TCD – Maria Luiza | Para mim, que não estou na equipe desde o início e que, antes de entrar, já era uma tcdete (como chamamos os fãs da Textos cruéis demais), não foi uma surpresa. Eu conhecia a escrita da maioria dos integrantes pelo Tumblr, e quando eu soube que estariam compilados numa página os textos deles, eu sabia que eles iriam longe. Sabia que conseguiriam colocar muita gente para fazer uma pausa na correria dos dias.

LER&CIA | Em sua opinião, por que Textos cruéis demais faz tanto sucesso com o público?

TCD – Letícia | Acho que nossos textos fazem sucesso porque são sinceros. São textos sobre o que sentimos, sobre a forma que enxergamos o mundo e sobre como o amor deixou suas marcas em nós; o que acaba gerando empatia e identificação com o público, uma vez que estamos todos neste barco imenso que é sentir. É claro que nem todos os textos são cruéis, apesar do nome da página influenciar muito no que os leitores esperam encontrar no que escrevemos. Há muitos que têm uma mensagem positiva, envolvendo autoaceitação e amor próprio.

LER&CIA | Como foi publicar o livro? Há conteúdos diferenciados na publicação?

TCD – Igor | Ainda hoje eu sinto que não aconteceu, sabe? Escrever um livro e publicá-lo sempre foi um grande sonho, até que, pronto! Aqui está. E você nunca está preparado, na verdade, pra ver tantas coisas boas acontecendo. O livro está na lista dos mais vendidos há um tempo; não tivemos o maior investimento do mundo e mesmo assim ele vem esgotando a cada semana nas livrarias. Então, sim, é uma felicidade sem tamanho, mas também um sentimento de dever cumprido e de, enfim, estar no mundo. O livro tem conteúdo inédito e o público poderá encontrá-lo vivo, honesto e extremamente humano. A história é a história a que todos nós somos submetidos: ciclos e fins. É sobre alguém tentando encontrar seu caminho, até achá-lo e vivê-lo da melhor maneira possível.

Maria Luiza Moreira
21 anos
Estudante de Medicina

LER&CIA | Quais são os temas sobre os quais vocês mais gostam de escrever?

TCD – Letícia | Eu gosto muito de escrever sobre o meu processo de autodescoberta e autoaceitação. Acho muito importante me conhecer, admitir pra mim mesma os meus defeitos e inseguranças e, a partir do que escrevo, poder me entender e mudar aquilo que me incomoda.

TCD – Maria Luiza | Gosto muito de escrever sobre empatia, luz, energia e sobre o que as relações me despertam. Também escrevo muito textos em tons de declarações para amigos. Mas independentemente do tema, eu gosto muito de ser honesta e fiel ao que eu sinto. Sempre. Meus textos carregam muita verdade sobre a minha vida, tanto é que quando um amigo lê algum texto na TCD, sempre sabe que é o meu. Até pelo jeitinho característico que cada um tem de escrever.

TCD – Igor | Escrevo de tudo um pouco, mas tenho um cisco visível que é o amor, qualquer tipo dele. Minhas experiências também são documentadas em forma de texto: viagens, amores e relações interpessoais abraçam meus olhos com mais frequência.

LER&CIA | Se por um lado as redes sociais tiram o tempo das pessoas lerem; por outro, permitem que textos como os de vocês se espalhem mais rapidamente. Há mais bônus ou ônus nas redes sociais?

TCD – Letícia | Um dos bônus é o alcance daquilo que escrevemos: nas redes sociais, atingimos muitas pessoas, diariamente. Outro é termos a chance de nos comunicar diretamente com os nossos leitores, de trocar experiências e opiniões sobre o nosso trabalho. Além disso, as redes sociais permitem uma escrita menos rígida, menos preocupada com a norma culta e com as formalidades. Uma das nossas marcas são os inícios de frase com letra minúscula, o que nos aproxima da forma como a maior parte do público escreve na internet. Maior ônus, na minha opinião, é o plágio. Eu detesto encontrar textos que escrevemos em outras páginas sem os devidos créditos. Me sinto muito desvalorizada. É ainda pior quando vejo comentários dizendo que deveríamos aceitar esse tipo de atitude porque “a internet é assim mesmo”. Sempre que encontro algum plágio denuncio e divulgo para o nosso público. Plagiadores precisam arcar com as consequências dos próprios atos. Outro ônus é que, na pressa do cotidiano, muitas pessoas não conseguem parar para ler os textos maiores por inteiro. Mas, nesse sentido, acredito que o Twitter seja um facilitador para os que têm menos tempo, por conter trechos bem menores. Então acredito que, no geral, existem mais bônus.