UMA VIDA, 15 MIL HISTÓRIAS

UMA VIDA, 15 MIL HISTÓRIAS

Não faltaram amigos incentivando ou editoras interessadas. Tampouco era a escassez de causos o impeditivo. Do encontro de uma vida de memórias a serem resgatadas com a pessoa certa para ouvi-las e colocálas no papel nasceu, enfim, um projeto antigo: a autobiografia de Jô Soares, que ganhou vida pelas mãos do jornalista Matinas Suzuki Jr., O Livro de Jô – Uma autobiografia desautorizada – Volume 1 (Companhia das Letras). O “desautorizada” dá o tom dos textos que serão encontrados pelo leitor. “Eu jamais faria uma ‘autobiografia autorizada’. Sou anarquista demais para isso”, diz o biografado.

Grande parte do livro não são histórias minhas, são histórias vividas por outras pessoas que eu presenciei ou que me foram contadas. Como participei de muita coisa na vida profissional – teatro, cinema, artes plásticas, música, literatura – acabei acumulando muitos casos que contava para os amigos e eles me pressionavam para publicá-los. Finalmente, publiquei.”

Para Suzuki Jr., ser escolhido por Jô foi um susto e a oportunidade de realizar um projeto engrandecedor. “Considero-me um afortunado, porque o Jô reúne as duas grandes qualidades de um grande narrador: um conhecimento imenso de um monte de coisas e uma experiência de vida notável, além da habilidade para contar as histórias estruturadas com começo, meio e fim”, declarou o jornalista.

Foram tantas lembranças mar – cantes para serem compartilhadas que as 477 páginas do primeiro volume não foram suficientes para abrigar as memórias. Os 80 anos de vida do comunicador – desses, 60 de carreira – precisaram ser divididos em dois volumes. Na obra inicial, os 30 primeiros anos de vida são relembrados. Lembranças de infância e juventude ajudam a entender a formação, a relação com os pais e o início da carreira nas artes do protagonista.

Em entrevistas exclusivas para a LER&CIA, Jô Soares e Matinas Suzuki Jr. contam mais sobre a experiência de escolher as principais histórias de um biografado cuja vida absorveu um pouco de cada uma das quase 15 mil entrevistas realizadas e de centenas de outras experiência

LER & CIA | Por que o livro é uma “autobiografia desautorizada”?

Jô Soares | Em primeiro lugar, eu jamais faria uma “autobiografia autorizada”. Sou anarquista demais para isso. O “desautorizada” significa que eu li e não autorizei, e mesmo assim publicamos. Há muitas biografias não autorizadas, então o Luiz Schwarcz, meu editor na Companhia das Letras, sugeriu o “desautorizada” e eu adorei.

Como foi selecionar, entre tantas passagens e momentos da sua vida, as que iriam compor sua autobiografia?

Não houve uma seleção prévia. O Matinas Suzuki Jr. ligava o gravador e eu ia contando as histórias e os casos como eles me vinham na cabeça. A vantagem de serem memórias é essa mesmo, você segue o fluxo do que vem à sua cabeça naquele momento. Eram tantas histórias – aliás, são 80 anos de vida e 60 de vida profissional – que o Matinas me disse que teriam de ser dois volumes.

Quais lados da sua personalidade e da sua vida você se preocupou em mostrar?

Eu não tive intenção de destacar esse ou aquele aspecto, as histórias iam pintando e eu ia contando para o gravador. E grande parte do livro não são histórias minhas, são histórias vividas por outras pessoas que eu presenciei ou que me foram contadas. Como participei de muita coisa na vida profissional – teatro, cinema, artes plásticas, música, literatura – acabei acumulando muitos casos que contava para os amigos e eles me pressionavam para publicá-los. Finalmente, publiquei.

Primeiro livro da biografia traz fatos da infância e do início da carreira de Jô.

Esse volume 1 conta fatos dos seus primeiros 30 anos de vida. Como sua infância, juventude e começo da sua vida adulta moldaram seus valores e sua carreira?

Talvez o aspecto mais importante do primeiro volume seja a formação que meus pais me proporcionaram. Não só o fato de eu ter podido estudar na Suíça e ter aprendido um monte de línguas, além da formação em cinema e teatro, que foi muito influenciada pela minha mãe, Mercedes, ou Mêcha, como era conhecida. Mas, sobretudo, pelos valores Grande parte do livro não são histórias minhas, são histórias vividas por outras pessoas que eu presenciei ou que me foram contadas. Como participei de muita coisa na vida profissional – teatro, cinema, artes plásticas, música, literatura – acabei acumulando muitos casos que contava para os amigos e eles me pressionavam para publicá-los. Finalmente, publiquei.” que herdei deles e que considero a minha verdadeira formação. Meus pais não eram pais convencionais, tive muita liberdade e sempre fui tratado como adulto.

Grande parte da sua carreira consistiu em entrevistar pessoas e contar histórias. O livro traz algumas dessas passagens que poderia destacar?

Eu fiz quase 15 mil entrevistas só nos meus talk shows, inicialmente no SBT e depois na Globo – no começo da carreira fiz também muitas entrevistas para o programa da Hebe Camargo na TV Record e para o programa do Silveira Sampaio, meu grande mestre. Foram 28 anos entrevistando pessoas. É dificílimo destacar algumas, eu acho que elas valem pelo conjunto, pela imensa biblioteca de tipos humanos – dos mais humildes aos presidentes da República e ganhadores do Prêmio Nobel – que passaram por aquele pequeno sofá.

As artes – televisão, teatro, cinema, literatura, humor – sempre fizeram parte de sua vida. Como foi transitar por tantas profissões?

Olha, eu nunca parei para pensar nisso. Eu sempre digo que são como os cinco dedos da minha mão. Já nasci com eles e cada um tem uma função diferente. As coisas saem naturalmente e são decorrentes da minha visão de mundo, que é a visão do humor.

Lendo suas histórias, observa-se que o bom humor e a curiosidade são algumas das suas características mais marcantes. Quais outras destacaria?

O humor implica necessariamente em liberdade e independência de pensar e de se expressar. Por isso, nunca abri mão da minha independência em tudo que faço. E a curiosidade é matéria-prima para um artista e para um escritor. Continuo aprendendo hoje, aos 80 anos, da mesma maneira que era curioso e procurava sempre aprender quando comecei a estudar. Isso não mudou.

Aos 80 anos, e recém-relembrando uma história intensa de vida, consegue definir o que é uma “vida bem vivida” para você?

É você chegar aos 80 anos e poder dizer pra si mesmo: não me arrependo nada do que fiz. É claro que cometi erros, como todo mundo comete. Mas essencialmente fui sempre a pessoa que justamente por não levar totalmente a sério as coisas, leva-as totalmente a sério. Também sempre tive uma preocupação com o Brasil. Sempre achei que ele seria um país que daria certo, sempre fui otimista, e ainda hoje, apesar de todos os percalços, continuo sendo otimista e amando imensamente o meu país.

COM O AUTOR MATINAS SUZUKI JR.

LER & CIA | Como foi ter sido escolhido para contar a história de vida de uma personalidade tão autêntica como Jô Soares?

Matinas Suzuki Jr. | Eu tomei um susto tremendo quando o Jô Soares me escolheu para fazer o livro de memórias com ele. Eu nunca me achei preparado para fazer esse tipo de trabalho – e além de tudo, a responsabilidade era imensa. Eu nunca escrevi um livro e não tinha plano de escrever, até que o Jô me deu essa oportunidade, que só acontece uma vez na vida. Considero-me um afortunado, porque o Jô reúne as duas grandes qualidades de um grande narrador: um conhecimento imenso de um monte de coisas e uma experiência de vida notável, além da habilidade para contar as histórias estruturadas com começo, meio e fim. Para mim foi um daqueles projetos que você sai com os horizontes maiores do que tinha quando entrou.

Como foi o processo de produção do livro?

Eu ligava o gravador e o Jô ia contando as histórias. Foi a sequência de dias mais divertida que tive na vida. Também foi como se eu fizesse uma imersão em um mundo de conhecimento absolutamente fantástico. Havia uma pessoa contratada pela Companhia das Letras para degravar os áudios, que eram registrados no iPad do Jô e no meu iPhone. Depois eu organizava esses depoimentos, fazia um primeiro copy desk e enviava para o Jô dar o texto final. Ele me ensinou muito, porque ele tem uma preocupação com a oralidade e com a inclusão de diálogos – que vem da sua experiência como roteirista e diretor de teatro – que deram o tom certo do livro.

O que esperar para a 2ª parte da biografia?

Estamos trabalhando no segundo volume – ao mesmo tempo em que o Jô prepara a peça A noite de 16 de janeiro, que entrará em cartaz em maio, em São Paulo. É a volta dele aos palcos depois de muito tempo e uma peça interessantíssima. O Livro de Jô 2 deve sair em outubro.