VIII CONCURSO DE CONTOS

VIII CONCURSO DE CONTOS

O Grupo Livrarias Curitiba promoveu o VIII Concurso de Contos. Essa edição contou com centenas de inscrições de todo o Brasil. Foram selecionados seis contos, entre eles “Atrasados”, de João Alexandre Camargo da Silva, de Curitiba (PR).

ATRASADOS

Quanta gente, família, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos todos conversando, falando baixo, alguns emocionados, sentimentos misturados, sofrimento, tristeza, cansaço. Eu circulava tranquilamente pelo ambiente sem ser notado, via tudo, ouvia tudo, sentia tudo. O seu Raimundo do mercadinho, já fazia muito tempo que não ia lá, o pão dele não era nenhuma maravilha, acho que ele veio pelo passado, época que anotava na caderneta, quantas vezes em momentos difíceis ele salvou o almoço. Minha vizinha, chorando copiosamente, do jeito que está vão pensar que tínhamos algo a mais, o porteiro do prédio, até o antigo dono do boteco da esquina, este sim foi meu confidente, acho que ele sabe mais da minha vida do que eu, quantas discussões, política, futebol. Os aposentados da repartição, nossa, tens uns que pensei que já tinham ido, tem dois com belas com panheiras, acho que casaram de novo, a não, uma é cuidadora e outra é a neta, deve ser motorista do avô.

Estes jovens não conheço, falam pouco, escrevem muito no telefone, devem ser amigos de meu neto, meu neto, já virou um moço, quando pequeno vivia lá em casa, me adorava, eu levava pescar, no futebol, levei até no shopping, coisa que detestava, cada vez foi aparecendo menos, quando ia acabava me tirando algum dinheiro, mas acho que avô serve para isso mesmo, ele sempre foi um bom menino.

Meus amigos do futebol, contando e aumentando as mesmas histórias, combinando de se reencontrar, da maneira que falam parece que fui um herói, as pessoas melhoram muito quando vão embora, que saudades daqueles tempos. Minha família parece bem triste, minha companheira de uma vida toda, meus filhos noras, netos, meus primos, alguns vieram de longe, só agora percebo o quanto vão fazer falta, e o quanto gostavam de mim. E esta criançada, parece que não estão entendendo nada, melhor não terem vindo.

Toda esta gente me fez relembrar a boa vida que tive, os bons momentos, minhas recordações são as melhores, mas a minha memória mais recente lembra a solidão que senti nos últimos tempos, dos dias em frente à televisão, andando na praça na esperança de encontrar alguém para conversar, admito minha culpa por não tomar a iniciativa, por medo de atrapalhar. Quantos na mesma situação se sentindo só, tendo uma multidão de amigos e parentes para procurar, na vida não me arrependo de quase nada do que fiz, mas com certeza me arrependo do que deixei de fazer. Antes da despedida gostaria de ter tido a oportunidade de fazer uma última pergunta a todos. Por que não vieram antes?