CONCURSO DE CONTOS: A MELANCIA

CONCURSO DE CONTOS: A MELANCIA

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A moça chegou ao ponto de ônibus ofegante. O calor estava insuportável. Pegou o lenço de papel e secou delicadamente o rosto. Aproveitou a tela do aparelho para conferir o visual. Ainda bem que o rímel enviado pela amiga que morava na Suíça era de marca boa e não escorria fácil.

“Suíça, frio, neve, roupas chiques, botas de cano alto”. Desde menina que sonhava em conhecer a Europa. O barulho do velho ônibus na estrada esburacada trouxe ela de volta à realidade. A porta abriu com um solavanco. O idoso a sua frente demorou para entrar carregando uma bolsa enorme e pesada. No final da fila uma senhora com uma melancia enorme nos braços xingou motorista e cobrador por “não tirarem a bunda do banco para ajudar os passageiros”. Depois de todos embarcados o motorista acelerou bruscamente, de próposito. Para não cair a senhora soltou a melancia que, como se tivesse vida própria, girou a roleta e foi parar, intacta, no meio do corredor, arrancando gargalhadas de todos.  A mulher tentou ir ao resgate gritando “minha melancia!”, mas o cobrador travou a catraca. “Desculpa dona, mas se a senhora girar a roleta de novo, vai ter que pagar duas passagens”, disse ele. “Mas por quê?”, perguntou a mulher, incrédula. “Porque se não vai dar furo no meu caixa”, respondeu ele. “Mas foi um acidente!” gritou a senhora nervosa. “Imagina se eu tivesse que pagar todas as vezes que alguém gira a catraca sem querer. Não me sobraria salário no final do mês”, explicou sem muita paciência. O ônibus parou repentinamente, a melancia voltou rolando e parou na catraca. Mais risos. O motorista virou-se e disse ironicamente “se a senhora não tem dinheiro eu pago sua passagem, mas senta logo antes que caia também, vozinha” ao que ela respondeu bufando de raiva “vozinha é a senhora sua mãe, seu abusado!, pode deixar que eu pago a minha passagem e da minha melancia também!”, ao mesmo tempo que procurava o dinheiro na bolsa. Passou a roleta e pegou a melancia do chão, como se segurasse um bebê. Analisou os bancos vazios. Parou ao lado da moça e pediu: “Você pode sentar no banco de trás minha filha?”. A moça detestava sentar no banco do corredor porque quando o ônibus enchia as pessoas ficavam esbarrando nela, mas gostava menos ainda de confusão. Deu um sorriso sem graça e trocou de assento. A senhora colocou a melancia em um banco e sentou-se no outro, uma mão segurando a fruta. Todos que entravam olhavam curiosos para a estranha passageira “sentada” ao lado da senhora. Coube a um exausto e desavisado professor, carregado de livros e cadernos, a infeliz ideia de pedir “Será que a senhora poderia pegar sua melancia no colo para eu me sentar?”. A mulher sorriu e respondeu “Desculpa moço, mas não posso não”. Surpreso com a resposta ele sugeriu “Eu posso carregá-la para a senhora”. Olhando em volta com o dedo em riste ela disse bem alto “olha moço, minha melancia pagou passagem igual todo mundo aqui, então ela tem direito de viajar sentada. Se não gostou, conversa lá com o cobrador”.