AS MARCAS DA ESCRAVIDÃO

AS MARCAS DA ESCRAVIDÃO

Edição 88 da Revista LER & CIA

Para entender a história e a sociedade brasileira é fundamental compreender como foi o período escravagista, seu funcionamento e as marcas que ele deixou para a nossa sociedade. Apesar da importância do tema, ainda são poucos os livros que o exploram em profundidade. Foi para preencher essa lacuna que o escritor Laurentino Gomes se debruçou durante seis anos em livros, documentos, além de viagens a locais que marcaram a época.

Novas informações e um olhar diferente sobre a dinâmica que mudou para sempre o país são as contribuições que o autor traz na trilogia Escravidão, cujo primeiro volume foi lançado recentemente. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Laurentino contou sobre o processo de produção da obra e falou sobre a herança africana e escravagista para o Brasil, país que recebeu quase 5 milhões de cativos africanos, cerca de 40% do total dos 12 milhões embarcados para as Américas. “Uma sociedade, ou um país, que não estuda história é incapaz de entender a si mesmo porque desconhece as suas raízes. Como não sabe de onde veio, provavelmente também não saberá o que (ou quem) é hoje e muito menos o que será no futuro.”  

LER&CIA | Como foram as pesquisas para esta nova trilogia?

Laurentino Gomes | Ao todo, foram seis anos de pesquisas, nos quais li quase duzentos livros sobre o tema e viajei por doze países em três continentes. Estive em Cartagena, na Colômbia, que foi o principal porto negreiro do antigo império colonial espanhol. Depois percorri o sul dos Estados Unidos, cenário da Guerra da Secessão, em que mais de 750 mil pessoas morreram para que a escravidão fosse abolida pelo presidente Lincoln. Em seguida, morei em Portugal durante seis meses. A partir dali fiz cinco viagens a oito diferentes países africanos: Cabo Verde, Senegal, Marrocos, Angola, Gana, Benim, Moçambique e África do Sul. Também estive em Londres e Liverpool, na Inglaterra, que foram grandes centros de construção e financiamento de navios negreiros até o final do século 18. Além disso, percorri o Brasil, visitando, entre outros lugares, quilombos no estado da Paraíba; usinas e engenhos de cana­de­açúcar em Pernambuco e na Bahia; a Serra da Barriga, em Alagoas, onde morreu Zumbi dos Palmares; o Vale do Paraíba, em São Paulo, as antigas minas de ouro e diamantes em Minas Gerais e o Cais do Valongo, que foi o maior porto negreiro das Américas no século 19. Em resumo, fiz uma gigantesca reportagem jornalística, que agora transformo em três livros a serem publicados até 2021.

LER&CIA | De que forma o tema ainda carece de compreensão na sociedade brasileira?

Estudar a herança africana e escravagista é fundamental para entender a história do Brasil e as dificuldades e características do país atualmente. O tema costuma ser muito popular no carnaval e outras manifestações populares, como se vê nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Apesar disso, são poucas as obras no mercado editorial que explicam o assunto em detalhes e linguagem acessível ao leitor comum. O objetivo dessa minha nova trilogia é preencher essa lacuna. No final do século 17, o padre jesuíta Antônio Vieira cunhou uma frase famosa. “O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África”, afirmava ele. No meu entender, é uma frase profética, que se torna cada vez mais verdadeira com o passar do tempo. E continua atual ainda hoje. O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu quase 5 milhões de cativos africanos, cerca de 40% do total dos 12 milhões embarcados para as Américas. Como resultado, tem hoje a maior população negra do mundo, com exceção apenas da Nigéria. Foi também o país que mais tempo resistiu a acabar com o trá
Estudar história é uma tarefa fundamental em um Brasil que, pela primeira vez em mais de 500 anos, convida todos os brasileiros a participar da construção do futuro em um regime de democracia representativa.”
Entrevista / LER&CIA
fico negreiro e o último a abolir o cativeiro, pela Lei Áurea de 1888 – quatro anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba. A escravidão foi a experiência mais determinante na história brasileira, com impacto profundo na cultura e no sistema político que deu origem ao país depois da independência. Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor para a construção da nossa identidade.

LER&CIA | Por que entender essa prática é tão fundamental para compreendermos nossa história?

Acho que a melhor maneira de enfrentar os desafios é pelo estudo da história. Precisamos entender e refletir sobre o que aconteceu. Uma sociedade ou um país que não estuda história é incapaz de entender a si mesmo porque desconhece as suas raízes. Como não sabe de onde veio, provavelmente também não saberá o que (ou quem) é hoje e muito menos o que será no futuro. Por isso, estudar história é uma tarefa fundamental em um Brasil que, pela primeira vez em mais de 500 anos, convida todos os brasileiros a participar da construção do futuro em um regime de democracia representativa. Só pelo conhecimento será possível preparar, ou qualificar, os cidadãos brasileiros para a difícil tarefa de fazer escolhas e organizar a realização do país dos nossos sonhos. Isso inclui o racismo e o passivo social resultante da escravidão.

No Brasil, a preservação dos documentos e locais que remetem a esse período é pouco valorizada? Infelizmente, até hoje não temos no Brasil um grande museu nacional da escravidão e se você vai nos nossos museus históricos, também ali o tema é tratado de forma secundária. Acredito que isso seja resultado de um projeto nacional inconsciente, mas deliberado, com o objetivo de esquecer o assunto. Até alguns anos atrás, tornou­se ideia comum que os documentos da escravidão teriam sido destruídos e malconservados, o que torna o estudo do tema difícil, quando não impossível. Isso é verdade apenas em parte. De fato, parte da documentação histórica, relacionada aos registros de compra e venda de escravos na antiga Alfândega do Rio de Janeiro, foi destruída por ordem de Rui Barbosa, então ministro da Fazenda, logo depois da Proclamação da República. Com essa medida, os republicanos queriam, segundo se diz na época, “apagar uma mancha” na história brasileira, o que, obviamente, foi inútil porque a “mancha” nunca se apagou. Mas, apesar disso, restaram inúmeras outras fontes preciosas, relativamente intactas e pouco exploradas. Isso inclui inquéritos policiais e processos na justiça envolvendo os escravos e seus senhores, testamentos e inventários pós­morte, certidões de batismo, casamento e óbito, em anúncios de fuga ou de compra e venda de cativos registrados nos jornais da época ou em documentação cartorial. Existem também depoimentos de viajantes que visitaram o Brasil na época e deixaram preciosos relatos a respeito da escravidão. Tudo isso tem ajudado os historiadores a reconstruírem nos mínimos detalhes essa grande história brasileira de dor e sofrimento.

LER&CIA | Quais as principais marcas que esse período deixou em nossa sociedade? Diria que é uma ferida aberta por aqui?

O legado da escravidão está presente na realidade brasileira neste início de século 21 de duas formas. A primeira são os indicadores sociais, que mostram um abismo de oportunidades entre a população branca, descendente de europeus, e a população de origem africana. Isso faz com que, por exemplo, nas 500 maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência sejam ocupados por negros. Os brancos são também a esmagadora maioria em profissões qualificadas, como engenheiros (90%), pilotos de aeronaves (88%), professores de medicina (89%), veterinários (83%) e advogados (79%). O segundo legado é o preconceito racial. O racismo é uma consequência histórica, resultado da escravização de milhões de africanos de pele negra, que resultou na construção de uma sociedade de castas, em que alguns têm acesso a oportunidades de renda, trabalho, educação, saúde, moradia e aos recursos do Estado, e outros, não. O racismo é, portanto, uma forma de hierarquização de poder. Esta é uma das marcas mais profundas e duradouras da escravidão africana nas Américas: o nascimento de uma ideologia racista, que passou a associar a cor da pele à condição de escravo. Por essa ideologia, usada como justificativa para o comércio e a exploração do trabalho cativo, o negro seria naturalmente selvagem, bárbaro, preguiçoso, idólatra, de inteligência curta, canibal, promíscuo, “só podendo ascender à plena humanidade pelo aprendizado na servidão”, na definição do africanista brasileiro Alberto da Costa e Silva. Sua vocação natural seria, portanto, o cativeiro, onde viveria sob a tutela dos brancos, podendo, dessa forma, alçar eventualmente um novo e mais avançado estágio civilizatório. Essa ideologia, no meu entender, permanece ainda hoje oculta nas formas preconceituosas de relacionamentos entre brancos e negros no Brasil.

 LER&CIA | A escravidão, mesmo de forma velada, ainda é um problema social no Brasil e no mundo. Como você vê essa questão?

A escravidão é parte do código genético brasileiro. Existiu desde o início da ocupação portuguesa até quase o final do século 19. Envolveu tanto indígenas brasileiros quanto africanos escravizados. Antes de investir maciçamente no tráfico de cativos africanos, os portugueses tentaram de todas as maneiras suprir as necessidades de mão de obra da colônia com escravos indígenas. Estima­se que na época da chegada de Cabral haveria entre 3 e 4 milhões de indígenas brasileiros, distribuídos em centenas de tribos. Falavam mais de mil línguas e representavam uma das maiores diversidades culturais e linguísticas do mundo. A escravidão acabou, legalmente e formalmente, com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888. Mas, infelizmente, continua a existir no Brasil e no mundo todo sob outras formas, mais sutis e disfarçadas de exploração do trabalho, de maneiras desumanas, indignas e inaceitáveis para os padrões éticos que julgávamos ter atingido neste início de século 21. Uma organização britânica, a Anti­Slavery International(mais antiga entidade de defesa dos direitos humanos, fundada em 1823 para combater o tráfico negreiro), afirma que existem hoje mais escravos no mundo do que em qualquer período nos 350 anos de escravidão africana nas Américas. Seriam 20 milhões de pessoas vivendo hoje em condições de vida e trabalho análogas às da escravidão – ou seja, quase o dobro do total de cativos traficados no Atlântico até meados do século 19. Ainda segundo a Anti­Slavery Internacional, a cada ano cerca de 80 mil pessoas são traficadas internacionalmente ou mantidas sob alguma forma de cativeiro, impossibilitadas de retornar livremente e por seus próprios meios aos locais de origem. E, lamentavelmente, o nosso Brasil aparece sempre com destaque nesta lista suja.

 LER&CIA | Neste primeiro livro você reconta a fase inicial, começando pelo primeiro leilão de escravizados africanos. Teve alguma história ou detalhe desse período que mais te chamou a atenção?

Um detalhe que me chamou muito a atenção, e também me deixou assustado, diz respeito aos altos índices de mortalidade do tráfico de escravos e ao comportamento dos tubarões que seguiam as rotas dos navios negreiros. Durante mais de três séculos e meio, o Atlântico foi um grande cemitério líquido. Pelo menos 1,8 milhão de cativos morreram durante a travessia e foram sepultados no mar. Isso significa que, sistematicamente, ao longo de todo esse período, em média, 14 escravos foram lançados da amurada de um navio todos os dias. Por essa razão, os navios que faziam a rota África­Brasil eram chamados de “tumbeiros”, ou seja, tumbas flutuantes. Os cadáveres eram então atirados por sobre as ondas, sem qualquer cerimônia, às vezes sem ao menos a proteção de um pano ou lençol, para serem imediatamente devorados pelos tubarões e outros predadores marinhos. Segundo inúmeras testemunhas da época, mortes tão frequentes e em cifras tão grandes fizeram com que esses grandes peixes mudassem suas rotas migratórias, passando a acompanhar os navios negreiros na travessia do oceano, à espera dos corpos que seriam lançados sobre as ondas. Esses rituais eram parte da rotina a bordo.

 LER&CIA | No livro, você desmente mitos e traz passagens polêmicas. Quais você destacaria?

Há hoje uma guerra no calendário cívico nacional envolvendo dois personagens e duas datas importantes relacionadas à história da escravidão. A primeira data é o 13 de maio, dia da assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel, em 1888. A segunda, o 20 de novembro, da morte do herói dos Palmares, em 1695. Qual delas seria mais importante e digna da reverência dos brasileiros neste início de século 21? A polêmi
ca é menos trivial do que se imagina. Nela aparecem diferentes visões a respeito da história da escravidão, seus acontecimentos e personagens, como também do seu legado para as atuais e futuras gerações. Os defensores do 13 de maio reverenciam a Princesa Isabel no papel que lhe foi atribuído no século 19 pelo jornalista e abolicionista negro José do Patrocínio: o de “Redentora” da liberdade dos cativos no Brasil. Os aliados de Zumbi e do 20 de novembro, ao contrário, acreditam que a Lei Áurea foi apenas um ato de fachada da elite agrária escravocrata brasileira que até então defendera com unhas e dentes o regime escravagista. Por essa visão, a luta dos escravos brasileiros estaria mais bem representada pelo herói de Palmares e a data de seu sacrífico nas matas de Alagoas. É uma guerra que ainda está longe de acabar, só vai se resolver pelo estudo da história da escravidão e pela maneira como vamos encarar esses personagens e acontecimentos no futuro.

 LER&CIA | Por outro lado, tivemos heranças positivas das raízes africanas em nossa sociedade. Como se dá essa contribuição?

A escravidão é uma história de dor e sofrimento. Mas dela também nasceu muita beleza. No livro, eu mostro que em nossas raízes africanas há uma história de domínio e opressão de um grupo de seres humanos pelo outro, de muita crueldade e injustiça. Mas há também beleza e encantamento. São da África a capacidade de resistência e adaptação, a resiliência, a criatividade, o vigor, o sorriso fácil, a hospitalidade, a alegria, a música, a dança, a culinária, as crenças religiosas e outros aspectos que transformaram o Brasil em uma sociedade plural e multifacetada, marcada por cores e ritmos que hoje nos diferenciam no mundo.