NA COZINHA COM RITA LOBO

NA COZINHA COM RITA LOBO

Ela deixa bem claro: cozinhar não é tarefa para “dona de casa” — na dança da cozinha, todo mundo tem que entrar. Sozinho ou a quatro mãos, a solução para uma alimentação mais saudável, para famílias mais unidas e até para uma vida mais feliz é colocar a mão na massa.

Rita Lobo encara a cozinha com seriedade: é questão de saúde pública. Por isso, seus livros trazem a consultoria nutricional de pesquisadores e especialistas que embasam cientificamente todas as dicas sobre alimentação saudável que apresenta. Saber diferenciar comida de verdade de imitação de comida, os supertemperados e ultraprocessados, é essencial. Mas ela também encara a cozinha com leveza, porque a mesa é, por excelência, um espaço de sociabilidade, de afetos e carinhos. O ato de cozinhar, tanto quanto o ato de comer, precisa ser saboroso.

Sua visão integral da cozinha levou ao sucesso do blog Panelinha, que há 19 anos traz informações, receitas e conteúdos didáticos sobre culinária saudável, com o tom e o tempero próprios da personalidade de Rita Lobo. Seu conceito de cozinha prática se expandiu para uma série de livros chamada Já pra cozinha, que recém ganhou um novo volume. Em Só para um: alimentação saudável para quem mora sozinho, Rita desmistifica a ideia de que não vale a pena cozinhar só para uma pessoa.

Em entrevista exclusiva para a LER&CIA, a empresária, chef e apresentadora fala sobre a importância de saber cozinhar, além dos desafios da alimentação saudável em um cenário de modismos e desinformação.

LER&CIA | Além da questão nutricional, qual a importância de saber fazer a própria comida? Quem não sabe nem ferver água para o café está perdendo o quê, estando fora da cozinha?

Rita Lobo | Diante do sistema alimentar atual, não saber cozinhar é abrir mão de manter uma alimentação saudável. A não ser que você possa contratar alguém para cozinhar para você. Hoje, está claro que a causa da obesidade epidêmica é o consumo dos ultraprocessados, ou “comida de mentira”. Para excluí­los, a gente precisa saber cozinhar. Cozinhar é uma ferramenta para uma vida mais saudável e até mais feliz. O aumento das taxas de obesidade está diretamente relacionado a isso. A nutrição moderna mostra que os países com padrão alimentar tradicional estabelecido, como a França e o Japão, apresentam os menores índices de obesidade. Isso ajuda a blindar a população contra a comida comprada pronta e as dietas malucas. E, mesmo no Brasil, os índices de obesidade só começaram a crescer à medida que a gente foi se afastando da cozinha.

LER&CIA |  Seus livros vão além da alimentação — abordam do prato principal à louça e trilha sonora. Qual a importância daquilo que está além da comida para a experiência de uma refeição?

Alimentação saudável vai além do prato. E tem até nome para isso: comensalidade. A forma de comer e o que comemos andam juntas. Não é à toa que a gente não come um prato de arroz e feijão dirigindo, nem serve fast food numa mesa bem montada. Além disso, louças bonitas, uma comida bem apresentada, tudo isso ajuda a trazer e manter a família à mesa.

LER&CIA |  Programas como o seu e de outros chefs estão ajudando a resgatar esse interesse pela cozinha e a encarar a tarefa de cozinhar de forma mais leve e prazerosa. Como você vê esse movimento?

O Panelinha foi lançado em 2000. Desde então a gente ajuda a levar as pessoas para a cozinha. O nosso trabalho é essencialmente um serviço. O entretenimento vem depois. A forma de apresentar o conteúdo nos livros, na internet e na televisão são completamente diferentes. O livro é um guia com começo, meio e fim, que praticamente entra com a pessoa na cozinha. A internet funciona melhor como consulta, a pessoa já sabe mais ou menos o que ela procura. E na televisão é preciso entreter, caso contrário a pessoa muda de canal. Acho que nosso diferencial é que, além de entreter, temos o serviço. E quanto mais gente estiver falando sobre comida, melhor. Assim comida vira assunto.

LER&CIA | Qual o grande desafio quando falamos de uma alimentação saudável: a falta ou o excesso de informação?

O grande desafio é conseguir não ser impactado pelos milhões de dólares investidos em marketing para dizer que você não precisa cozinhar, que é perda de tempo, que uma hora o produto tem que ser light, outra diet, sem glúten, sem lactose… E as pessoas vão caindo nesses modismos. Sob esse ponto de vista, talvez o problema seja o excesso de informação. Mas é verdade também que falta educação. Alimentação sempre foi considerada responsabilidade da mulher na casa, um assunto menor. Não é verdade. A partir do momento que a gente foi parando de cozinhar, os índices de obesidade foram crescendo e as populações foram ficando mais doentes. Então falta informação também de que cozinhar é fundamental para manter uma alimentação saudável.

LER&CIA | Comer saudável muitas vezes é confundido com fazer dieta. O que deve nortear uma alimentação saudável de verdade? É um desafio mostrar que é possível comer com prazer, de forma saudável e sem culpa?

A gente pode pensar assim: primeiro passo, excluir os ultraprocessados, ou seja, aqueles alimentos feitos e temperados na fábrica, que contêm aditivos químicos (leia a lista de ingredientes do rótulo). Quando você exclui os ultraprocessados, você entende a diferença entre imitação de comida e comida de verdade. Comida de verdade é saudável. Fica fácil de entender que alimentação saudável é gostosa e saborosa quando você entende que arroz, feijão, carne, legumes e verduras são alimentos saudáveis.

LER&CIA | O que não pode faltar na sua ceia de Natal? E quais temperos ou ingredientes te lembram a data?

O que não pode faltar no Natal para mim é a torta de nozes da vó Rita, que tem a receita no Panelinha. Hoje em dia não tem mais peru que não venha supertemperado, ultraprocessado, cheio de cosméticos. Como não suporto sabor de tempero pronto, pessoalmente não preparo peru. Mas lombinho de porco é incrível para o Natal, e no Panelinha a gente chegou numa receita em que ele fica super úmido, lindo e delicioso para a ceia.