A REALIDADE FEMININA SOB UM OLHAR FEMININO

A REALIDADE FEMININA SOB UM OLHAR FEMININO

Edição 90 da Revista LER & CIA

Lorena Pimenta, Carol Stuart, Fernanda Gayo, Jéssica Barros e Maysa Muniz nunca estiveram juntas em um mesmo local que não fosse algum grupo de internet. Criadoras e autoras de páginas de poesia no Instagram, as jovens se conheceram pelas redes, criaram um coletivo feminino e se uniram para escrever o CHORAR DE ALEGRIA,compilado de poesias lançado na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro em agosto do ano passado. A ideia surgiu da carioca Lorena Pimenta, que começou a buscar mulheres que escreviam sobre esses temas para formar o grupo. Para entender melhor o projeto, a LER&CIA conversou com a idealizadora.

LER&CIA | Para começar, por que Chorar de alegria?

Lorena Pimenta| O título faz uma brincadeira com a inversão de sentimentos. É quase que uma esperança, já que o livro traz cicatrizes e também o processo de cura delas. É uma espécie de desejo para o futuro. Que a gente chore mais de alegria do que de tristeza. No último texto do livro, temos um desenvolvimento do título para que o leitor, depois de passar por um turbilhão de sentimentos, sinta alívio e orgulho de si por ter suportado tantas coisas – especialmente porque os temas levantados são universais. Acho que ter orgulho da própria resistência já é um enorme
motivo para chorar de alegria.

LER&CIA | Qual é o tipo de sentimento que o leitor pode esperar ao ler a obra?
Lorena Pimenta | Às vezes, na correria da rotina, passamos rápido por situações que exigem calma e atenção. O primeiro sentimento que o livro traz ao leitor é o de ter o olhar aberto para dentro de si mesmo, enxergando suas dores como um mapa. O segundo sentimento é o de conjunto por saber que não está sozinho após ler que outras pessoas no mundo sentem o mesmo. Isso potencializa a coragem e a esperança. O terceiro sentimento é o de tranquilidade por saber que as autoras do livro, que passaram por todo esse turbilhão de machucados e cura, sobreviveram com alegria.

LER&CIA | Em sua opinião, o que a existência de um livro feito apenas por mulheres significa para o público de literatura?

Lorena Pimenta | Existe esse lugar que precisa ser ocupado por nós, mulheres, porque é essencial haver igualdade em todas as profissões no mundo. Antes do projeto começar, eu estava superincomodada com a line up de alguns eventos literários, pois claramente a presença de mulheres era minúscula. Enquanto isso, os homens – mais uma vez – tomavam conta. Admiro muitos autores e isso não é uma guerra. Pelo contrário: acho que a arte democratiza quando equilibra. A existência do livro reforça o olhar profundo sobre nós que ultrapassa criatividade
e talento, algo que só a gente consegue ter. Ajuda as mulheres a olharem com mais sensibilidade para si e também a encorajá-las a expor suas artes.

LER&CIA | Como você acha que o livro, com a abordagem sensível que traz, pode ajudar outras mulheres a enfrentarem inúmeras questões do dia a dia?
Lorena Pimenta | No livro, não há julgamentosàs mulheres. Assim como o olhar expressado não parte do externo. Escrevemos sobre todas as situações estando dentro delas e isso faz toda a diferença numa sociedade em que mulheres sentem culpa até quando são vítimas. A partir disso, criamos a conexão de cumplicidade que é essencial para abrir seus olhos. Com isso, a chance de conseguir é muito maior.

LER&CIA | Você acha que é um ramo com predominância masculina?
Lorena Pimenta | Com certeza! E isso parte do machismo estrutural em que mulheres foram levadas a sério bem depois dos homens. Infelizmente, passei a maior parte da adolescência lendo livros escritos por homens. Ótimos autores, por sinal, mas sempre me faltou o olhar feminino sobre a arte. O bom é que, agora, aos poucos, estamos mudando o cenário. Fico feliz em saber que existem diversas referências para meninas e mulheres que desejam seguir essa carreira – e que essas referências ultrapassam outras camadas como, por exemplo, a representatividade negra.

LER&CIA | Em muitos momentos, o livro reforça a importância do amor-próprio feminino. Hoje, por que isso deve ser debatido?
Lorena Pimenta | Sem amor-próprio a gente não consegue filtrar o que deve ou não aceitar e, quando aceitamos menos do que merecemos, dificilmente chegaremos aonde queremos.

LER&CIA | Você é carioca. Você conseguiria lembrar de algum texto que escreveu para o livro que tenha sido inspirado em alguma questão do seu cotidiano?
Lorena Pimenta | O texto “Quando o mar virou gente” fala de um amor embalado pelo cenário carioca. Ele não existiria se minha saudade não repousasse na Urca, meu desejo não visitasse a Tijuca e minha esperança não admirasse as luzes do Vidigal.