NO MUNDO DE CARINA RISSI

NO MUNDO DE CARINA RISSI

Edição 89 da Revista LER & CIA

Há seis anos, a autora surgia nas prateleiras de chick-lit, figurando ao lado de grandes nomes como Sophie Kinsella e Meg Cabot. Seu romance de estreia, Perdida, vendeu mais de 100 mil cópias e foi traduzido para o russo, italiano e ucraniano, além de ter sido publicado também em Portugal. Ao longo do tempo, novos enredos surgiram — e a legião de fãs continuou a crescer. Divertidas e românticas, as histórias de Carina versam sobre amores impossíveis, às vezes com um pé na realidade e outro na fantasia. Mas são todos amores arrebatadores e, admite a autora, com uma pitada de Jane Austen, que é uma de suas autoras favoritas e fonte de inspiração para seus trabalhos.

Lançado em outubro, seu novo romance, Amor sob encomenda, tem como proposta trazer a reflexão sobre o que realmente é importante em nossas vidas. A narrativa se desenrola em um universo já conhecido, o de Procura-se um marido e Mentira perfeita, livros nos quais conhecemos a garota que agora torna­se protagonista, Melissa Gouvêa.

Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Carina fala sobre seu processo de escrita, sua trajetória na literatura e sua nova obra, que promete arrancar suspiros, mas também risadas dos leitores.

LER&CIA | Como Jane Austen inspirou seu estilo?

Carina Rissi | Jane é fabulosa! Ela é minha maior influência literária, meu norte e meu sul, e me influencia de todas as maneiras possíveis. A forma como ela escreve faz parecer tão fácil… e não é, é claro! Eu sempre insiro algo sobre ela em meus livros, seja mais escancarado, como em Perdida, ou um pouco mais sutil, como em Procura-se um marido, Quando a noite cai, Amor sob encomenda… É a minha maneira de dizer a ela o quanto eu a amo e sou grata por tanta inspiração.

LER&CIA | Como equilibrar o amor de “conto de fadas” com a vida real da mulher moderna?

Essa é uma pergunta que eu sempre me faço. A mulher moderna tem preocupações e tarefas demais, e horas de menos. Sobra tempo para viver um conto de fadas? Eu procuro colocar minhas heroínas em diversos tipos de situações justamente para ilustrar o cotidiano da mulher moderna. Problemas no emprego, em casa, com a família, com algum amigo… e no meio disso tudo surge um amor inesperado para bagunçar ainda mais as coisas, exatamente como costuma acontecer na vida real. No fim das contas, por mais ocupada e bem­ sucedida que a pessoa seja, ela nunca deixa de sonhar.

LER&CIA | Como é o seu processo de escrita e de construção de um enredo?

É tão bagunçado quanto minhas gavetas. Eu escuto muitos autores contando como eles têm controle absoluto sobre suas histórias. Não sou esse tipo de escritora. Até tentei criar uma fórmula para ordenar as ideias, mas acabei desistindo dela, pois não soava verdadeiro. Parecia que eu, Carina, contava a história, em vez de ouvir as vozes das personagens, e devo ser apenas uma ferramenta, afinal a história é delas, certo? Por isso sigo minha intuição e dou a liberdade para minhas heroínas me levarem para onde bem entendem. Não é incomum eu não saber para onde estamos indo. E gosto disso. Muito! Se eu me surpreender, o mesmo vai acontecer com o leitor.

LER&CIA | Como construir personagens e tramas envolventes?

Ah, como eu queria saber a resposta! Como falei antes, muitas vezes não sei para onde estou indo. Nove anos antes eu me aventurei no universo da escrita, sem ter ideia do que estava fazendo. Ainda hoje continuo não sabendo. Minhas personagens simplesmente aparecem, já prontas, com gostos, personalidade e trejeitos. Tudo o que eu faço é colocar no papel o que vejo. Minha única técnica consiste em me fazer uma pergunta quando a ideia para um novo livro surge: “por que essa história deve ser contada?” Uma vez que encontro a resposta, mergulho de cabeça no enredo e quando saio dele, muitos meses depois, é quase uma tortura. Como fazer intercâmbio, imagino. Você sente saudades e está louco para voltar para casa, mas se despedir daquele mundo recém­descoberto é dolorido.

LER&CIA | Você já tem bastante experiência na literatura, com obras que fizeram sucesso. Você vê seus livros mais “maduros”? O que mudou no seu estilo em comparação aos primeiros livros?

Não consigo ver nenhuma grande mudança no estilo em si. As mudanças ocorreram na estrutura do texto: aprendi a ler melhor minhas personagens, não perder a cabeça quando percebo que elas me deixaram no escuro. Minha escrita se tornou mais fluida, densa, e lapidar o texto já não me toma tanto tempo quanto antigamente. Gosto de pensar que quanto mais escrevo, melhor eu escrevo, ou nada faria sentido, certo?

LER&CIA | Como você define a personagem Melissa Gouvêa, protagonista da sua nova obra Amor sob encomenda?

A Mel é uma lutadora por natureza, embora não perceba. Não importa a força da pancada, ela vai tentar continuar de pé. Isso é uma das coisas que mais me encanta nela. A força que ela não compreende que tem até ser testada. Ela é uma de minhas personagens mais encantadoras, mais corajosas, mesmo apavorada. Acredito que as leitoras vão se identificar muito com a Mel.

LER&CIA | O que você acha que ela tem para ensinar e inspirar os leitores?

Eu aprendi muito com a Mel. A ser mais gentil comigo mesma, que existem coisas que, por mais que eu me esforce, estão totalmente fora do meu controle, que está tudo bem sentir medo e que isso não me torna fraca de maneira alguma, apenas ciente de minha força. Eu mal posso esperar para que os leitores a conheçam melhor. Fico torcendo para que ela consiga tocar o coração deles do mesmo jeitinho que fez com o meu.