UM PROJETO CULINÁRIA PARA MUDAR O MUNDO

UM PROJETO CULINÁRIA PARA MUDAR O MUNDO

Edição 89 da Revista LER & CIA

Gabrielle Mahamud trocou a vida no interior de Minas Gerais pela capital paranaense. Depois, trocou as delícias típicas de Minas, como feijão tropeiro e pão de queijo, por uma alimentação completamente à base de frutas, vegetais e grãos. Aos poucos, a arquiteta foi passando cada vez mais tempo na cozinha. Não teve jeito, na culinária Gabi encontrou sua paixão e vocação. Em 2016, ainda cozinheira amadora, criou o blog Flor de Sal, para compartilhar suas experiências, vivências e receitas. Não parou mais.

Juntou a fome à vontade de comer e, assim, em novembro do mesmo ano, criou o projeto GoodTruck, amadrinhado por Manu Buffara, um dos maiores nomes da cozinha nacional. O projeto social reúne voluntários para transformar insumos excedentes de supermercados, restaurantes e feiras em refeições para pessoas em situação de rua, em Curitiba. O reconhecimento veio de forma espontânea. Foi convidada para apresentar o projeto em um congresso da ONU, tornou­se membro do movimento do Slow Food e do Global Shapers, além de ter publicado um livro culinário, Flor de Sal – O livro de receitas do blog para uma alimentação mais natural e consciente, que lhe rendeu o maior prêmio internacional de livros de gastronomia, o Gourmand World Cookbook Awards, como o melhor livro brasileiro na categoria “blogueiro/mídia social”. Hoje, ela prepara o lançamento do segundo livro, ainda sem data prevista, e dá continuidade aos seus projetos. Enquanto viajava por diversos países da Europa em busca de novos sabores, experiências e aprendizados, Gabi concedeu uma entrevista exclusiva para a LER&CIA, que você confere ao lado.

LER&CIA | Tanto em seu blog quanto em seus livros, você aborda mais do que como manter uma alimentação saudável. Quais são as frentes que você defende como necessárias para termos uma visão integral da saúde?

Gabrielle Mahamud | Física, mental e espiritual. Acho que a saúde é um todo muito complexo e abrangente. Está ligada diretamente às nossas emoções e, consequentemente, à forma como cuidamos da nossa energia, que chamo de espiritualidade, mas não tem um vínculo direto com nenhuma religião ou crença específica. Existe, inclusive, um livro antigo que se chama Metafísica da Saúde, que correlaciona determinadas doenças físicas com desafios emocionais que possivelmente estamos passando. Quando você começa a se entender no meio dessa complexidade, preza pelo seu bem­estar e entende que corpo, mente e alma precisam estar alinhados e bem cuidados se você quiser, de fato, ter saúde.

LER&CIA | Hoje só crescem as opções para pessoas que seguem, por opção ou questões de saúde, dietas restritivas. Receitas sem glúten e sem ingredientes de origem animal são sinônimo de preparos mais saudáveis? De forma alguma! Existe uma confusão muito grande em relação a isso e eu, realmente, não acho que produtos ou receitas adaptadas para diferentes restrições alimentares sejam necessariamente saudáveis. Inclusive, acho que o segredo em comer saudável está em não comer muitos industrializados e refinados, como açúcares e farinhas. Quanto mais fresco e natural, melhor. Esse é o segredo da comida saudável. É simples.

No seu primeiro livro, você ensinou receitas simples, veganas e sustentáveis para ajudar as pessoas a terem mais au
tonomia na cozinha. Para o segundo livro, o que podemos esperar? O segundo livro está demais! Estou muito feliz com o resultado. Contei sobre minha história de vida de forma muito aberta e transparente. Correlacionei saúde, sustentabilidade com autoconhecimento e dei muitas dicas para quem quer ter ainda mais autonomia na cozinha. Como combinar sabores, técnicas, substituições, truques. O livro está todo interativo e dinâmico, com muitos exercícios para fazer no decorrer da leitura para ajudar o leitor a se conhecer melhor, se aceitar e dar um empurrãozinho para mudar o que achar que precisa ser mudado. Além disso, falo bastante sobre o GoodTruck, meu projeto social, e como ele mudou minha vida.

LER&CIA | Para quem está em transição e para quem tem uma dieta vegetariana, quais dicas você dá? Eu acredito que escolhemos muitas lutas através do nosso prato. Sejam lutas pessoais, sejam ideologias. Você escolhe se vai se cuidar com carinho através daquele alimento ou se vai se sabotar; se vai fortalecer a economia regional comprando de produtores locais ou se vai investir em grandes corporações etc. Então minha principal dica para quem escolheu se tornar vegetariano é: tenha em mente o seu porquê, é ele que te dá forças para continuar. No mais, também acho importante respeitar seu tempo – tem gente que tira tudo de uma vez e funciona, mas se você precisa que o processo seja gradual, vá com calma, e está tudo bem se rolar um deslize ou outro, o importante é não desistir da caminhada.

LER&CIA | Como está o projeto GoodTruck? A proposta se mantém a mesma ou algo mudou ao longo do tempo? O GoodTruck é uma metamorfose ambulante. Eu sou uma pessoa inquieta e muito questionadora e isso faz com que eu viva em busca de aprimoramentos para o projeto. Então, o que começou como uma brincadeira, virou meu trabalho de verdade. Hoje levamos programas de voluntariado corporativo para empresas e ensinamos os funcionários sobre consumo consciente e empatia através de dinâmicas, atividades, processos de facilitação, team building e meditações, além de, claro, cozinhar pra pessoas em vulnerabilidade social usando comida que seria desperdiçada. Hoje viramos uma ONG com um corpo de conselho cheio de profissionais maravilhosos e nos preparamos para expandir para mais duas cidades até o começo do ano que vem. Imagine se eu não estou feliz?