RESOLVENDO A EQUAÇÃO DA FELICIDADE

RESOLVENDO A EQUAÇÃO DA FELICIDADE

Edição 90 da Revista LER & CIA

Felicidade é o estado de espírito de quem se encontra alegre ou satisfeito. Apesar da defi nição ser curiosamente simples, há uma complexidade por trás da palavra que ultrapassa a alegria ou a satisfação. O que pouca gente sabe é que, para resolver a equação “Como ser feliz?”,dependemos unicamente das nossas próprias escolhas. Luiz Gaziri, palestrante, professor universitário e autor do livro A Ciência da Felicidade, estudou milhares de artigos científicos e visitou cientistas de universidades como Harvard e Stanford para encontrar esta resposta. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, o especialista contou o passo a passo para desvendar o segredo da felicidade.

LER&CIA | Com a virada de ano, muitas pessoas tentam se organizar para que suas vidas mudem. Para você, essas “mudanças”, no final das contas, podem se resumir à busca pela felicidade? Por quê?

Luiz Gaziri | Podem! Se a gente parar para pensar, qualquer objetivo que temos na vida, no final das contas, resume-se à felicidade. Muitas vezes, a pessoa quer mudar de emprego para ser mais feliz. Ganhar dinheiro. Ser promovido. Casar. Ter filhos ou mudar-se para o exterior. Portanto, sim, essas promessas de começo de ano são feitas com objetivo de aumentar nossa felicidade. O que precisamos saber é se esses objetivos traçados realmente nos deixarão mais felizes. Normalmente, o problema da questão é que a gente se ilude com o que vai nos alegrar.
O ser humano tem uma compreensão muito rasa sobre o que é felicidade e quais são os fatores que contribuem para esse fenômeno. Por isso,
a ciência vem como grande aliada!

LER&CIA | Inclusive, é possível definir “felicidade” de maneira simplificada?

Luiz Gaziri | A definição mais clara que os cientistas têm para nos dar é que a felicidade é a alegria que sentimos antes, durante e/ou depois de praticar alguma atividade que vai ao encontro dos nossos pontos fortes. Isso é felicidade. Não podemos esquecer: ela não é simplesmente sorrir. Existem outros fatores que trazem felicidade, outros sentimentos positivos que trazem felicidade, como admiração, inspiração, tranquilidade, serenidade.

LER&CIA | Em A Ciência da Felicidade, você esclarece que insegurança fi nanceira está relacionada a ter menos felicidade. Por quê?

Luiz Gaziri | A insegurança financeira causa a liberação do cortisol, o hormônio do estresse. Sempre que estamos preocupados em pagar as
contas ou se vivemos estressados, existe a liberação desta substância. Com isso, entramos em um ciclo em que a tendência das coisas é piorar: afinal, o cortisol bloqueia o córtex pré-frontal, que é a área de criatividade do nosso cérebro, responsável pela resolução de problemas complexos. É por isso que a gente toma as piores decisões quando tem insegurança fi nanceira: não temos criatividade, nossa argumentação piora, a capacidade cognitiva piora. Inclusive, o que preocupa muito os cientistas é a prática muito recorrente dentro das empresas que consiste na meritocracia. Muitas vezes, essas instituições pagam um valor fixo muito baixo para os funcionários e deixam que eles construam um salário através de comissões. Só que, não tendo a certeza que pagarei minhas contas, vai acontecer um declínio cognitivo. Isso vai acabar piorando a minha performance de trabalho e, consequentemente, a empresa terá um pior resultado.

LER&CIA | Em contrapartida, ainda no livro, você também afirma que ter mais dinheiro não significa ter mais felicidade. Portanto, qual é a verdadeira relação entre o dinheiro e a felicidade?

Luiz Gaziri | Daniel Kahneman e Angus Deaton, ganhadores do prêmio Nobel, descobriram que a felicidade ligada à renda cresce até determinado limite. Eles comprovaram que esse limite é a vida de classe média. A partir do momento em que a pessoa tem segurança financeira, uma casa, comida, roupas, possibilidade de viajar – mesmo que às vezes –, acesso a entretenimento e restaurantes, o dinheiro não será convertido em felicidade diária. Existe uma crença de que quanto mais dinheiro uma pessoa tiver, mais feliz ela vai ser e, com isso, impõe-se esse objetivo de vida. Consequentemente, sacrifica relacionamentos, amigos e até a saúde atrás de dinheiro.

LER&CIA | Existe uma forma ideal de se planejar para um novo ano com o objetivo de ser feliz?

Luiz Gaziri | Desde que a gente saiba quais são as variáveis que aumentam nossa felicidade, sim, é possível. Como eu uso o meu dinheiro para ser
mais feliz? Posso comprar presentes para as pessoas que gosto. Doar à caridade. Fazer viagens. Ir a restaurantes. Cientistas mostram que gastar
dinheiro com as outras pessoas deixa a gente mais feliz. São formas positivas de gastar: viagens, teatro, shows, restaurantes, educação, livros. Ou seja, usar o dinheiro para viver experiências traz um retorno interessante. Ser grato também é outra variável da equação da felicidade: lembrar e quantas coisas boas temos na vida. Inclusive, fazer um caderno de gratidão onde você escreve toda noite cinco coisas pelas quais você é grato é uma ótima forma de usar o sentimento a seu favor. Temos diversas formas de construir um ano de maior felicidade!

LER&CIA | No livro, você diferencia ser positivo de pensar positivo. Que diferença é essa e por que ela é tão relevante na busca pela felicidade?

Luiz Gaziri | Ser positivo é ser uma pessoa que vivencia muitos momentos gratificantes durante seu dia a dia. É quem, por exemplo, presenteia, gasta seu dinheiro com os outros, lembra de ser grato por tudo o que tem. É quem trata os outros de forma bondosa. Já pensar positivo é quando uma pessoa acredita que seus objetivos serão realizados com a força do pensamento, que o universo vai conspirar a favor dela. É simplesmente mentalizar que vai acontecer. De acordo com estudos da Universidade de Nova Iorque, quem pensa positivo tem menos chances
de atingir seus objetivos. Na pesquisa, confirmouse que esta atitude ativa uma área do sistema nervoso responsável por sentirmos prazer e, assim, inconscientemente nosso cérebro nos engana. Ele nos faz pensar que já alcançamos o objetivo. Também há estudos que relacionam o pensar positivo com a diminuição da pressão sistólica do coração, que está atrelada à motivação da pessoa. Logo, a pessoa não age verdadeiramente em direção aos seus objetivos.

LER&CIA | A Ciência da Felicidade cita as pessoas intituladas “desesperadas por reconhecimento”. Neste novo ano, que transformação elas podem buscar para que não percam os momentos que realmente interessam na vida?
Luiz Gaziri | Nós temos uma dificuldade de saber o que é que realmente nos deixa feliz e, por isso, muitas vezes buscamos o reconhecimento dos
outros. Os cientistas mostram o caminho contrário na busca pela felicidade: na verdade, ficamos mais contentes quando reconhecemos as pessoas ao redor. Quando buscamos o reconhecimento dos outros, colocamos a felicidade na mão dessas pessoas. Nunca sabemos se vão elogiar nosso cabelo ou nossa roupa nova, se o chefe vai reconhecer o trabalho… Se a gente faz qualquer coisa esperando o reconhecimento dos outros, muitas vezes vai se frustrar. As pessoas buscam sempre o máximo de curtidas nas redes sociais e esse consumo online nos afasta dos relacionamentos que realmente valem a pena na vida. O abraço do filho, o beijo da esposa, o sabor da refeição.

LER&CIA | Para você, qual é a maior dificuldade de ser feliz?

Luiz Gaziri | Existe um comportamento que preocupa os cientistas, chamado FOMO (“fear of missing out”), que significa “medo de ficar de fora”. Basicamente, consiste na tendência de pegar o telefone a todo instante porque não quer ficar de fora da última piada, do último meme, da última notícia. Isso vem com um preço impagável e acaba estragando os nossos relacionamentos, que são o previsor número um de felicidade. Precisamos moderar o uso de celular e, claro, a busca pelo reconhecimento dos outros. A gente precisa é reconhecer as outras pessoas e, quando estamos com alguém, precisamos estar verdadeiramente com ela – e não no telefone. Essas atitudes que já citei algumas vezes fazem com que
percamos momentos pequenos que vão aumentar consideravelmente a nossa felicidade.

LER&CIA | Qual dica você daria às pessoas que, em 2020, querem derrotar o medo de perder?
Luiz Gaziri | Em um primeiro momento, muitas das atividades que deixam a gente mais feliz não parecem verdadeiramente prazerosas. Usar seu
dinheiro para presentear alguém ou doar para a caridade, a princípio, não parece que trará felicidade, mas só percebemos que ficamos mais felizes depois que gastamos nosso dinheiro com outras pessoas. Temos um cérebro moldado evolutivamente pelo viés da negatividade, em que o ser humano tende a procurar coisas ruins. Por isso, precisamos praticar o máximo de coisas positivas no nosso dia a dia para que a gente mude a configuração original do cérebro. Dessa forma, ele aprende a procurar pelas coisas boas do mundo. A felicidade exige esforço e dedicação. Não é uma condição natural do ser humano. Precisamos construir nossa felicidade tendo momentos positivos diariamente.