LUTE, RESISTA E ESCREVA COMO UMA MULHER

LUTE, RESISTA E ESCREVA COMO UMA MULHER

Clássico exemplar da literatura americana, o livro Mulherzinhas, publicado pela primeira vez em 1868, foi a inspiração do filme Adoráveis Mulheres, dirigido por Greta Gerwig e lançado nos cinemas em dezembro do ano passado. A história reúne um drama familiar, traços de um romance histórico e inspirações autobiográficas de sua autora, Louisa May Alcott. Em uma entrevista exclusiva à LER&CIA, Thayssa Martins, diretora da Macabéa Edições, editora que trabalha exclusivamente com a mulheridade, falou um pouco sobre a obra que, mesmo após 150 anos desde a primeira edição, continua sendo um sucesso de vendas mundo afora.

LER&CIA | Em sua opinião, o que faz Mulherzinhas ser considerado um clássico?

Thayssa Martins | A obra dialoga com temas que perpassam as vivências femininas em diversos contextos sócio-históricos e culturais, inclusive contemporâneos. Por exemplo, configurações familiares compostas exclusivamente por mulheres e a confrontação com papéis de gênero socialmente impostos, seja pela tentativa de conformidade, seja pela de ruptura.

LER&CIA | Qual a importância desse livro para as mulheres da literatura?

Thayssa Martins | Ainda hoje, mulheres são rejeitadas na contratação de originais por uma editora, em premiações literárias, na crítica. Não faz muito tempo, Joanne Rowling teve de assinar seus livros como “J. K.” para ser confundida com um homem e conseguir, assim, melhores chances comerciais para seus livros. Temos, no Brasil e no mundo, um forte movimento convocando à leitura e à valorização de obras de mulheres porque isso ainda é necessário. Apenas por escrever e publicar, Louisa May Alcott, que inicialmente também usou um pseudônimo abreviado, já rompeu com papéis de gênero. Em Mulherzinhas, reivindica uma narrativa feminina, ainda que sob uma ótica marcada pela tradição da época, o que é natural. Reconhecer-se escritora, como vivencia a protagonista Jo March, pode ser parte do processo de se reconhecer sujeito e, para as mulheres, num contexto ainda masculinista, esse é um trabalho que nunca acaba. O público leitor é formado, em grande parte, por pessoas que escrevem ou sonham em escrever. Então pode ser muito catártico para a mulher leitora, e eventualmente escritora, acompanhar uma protagonista com a qual se identifique nessa atuação ou ambição.

LER&CIA | O livro foi publicado pela primeira vez em 1868. Para você, por que a história dessa obra continua sendo tão popular 150 anos depois?

Thayssa Martins | Há ainda identificação, especialmente das mulheres, com a obra. A respeito das configurações familiares compostas só por mulheres, é significativamente complexo quando figuras masculinas, como marido e pai, saem de cena, seja por contextos de guerra, como acontece no livro, seja por serem vítimas de violência, desaparecimento ou encarceramento, seja, ainda, por abandono. Essas ausências se fazem sentir tanto em questões práticas, afetivas e formativas (e nisso pensamos especialmente nos filhos de homens ausentes; em Mulherzinhas, filhas), quanto na luta das mulheres para se desvencilharem de um lugar de subalternidade que muitas vezes fica mascarado, mas ainda está lá.
LER&CIA | Por que incentivar a participação feminina na literatura?

Thayssa Martins | Porque a literatura é um retrato do mundo e as mulheres constroem o mundo. À revelia do que nos é imposto, nossas mãos e nosso trabalho estão em tudo, direta ou indiretamente.
LER&CIA | O que é exatamente a Macabéa Edições?

Thayssa Martins | A Macabéa é uma editora independente de mulheres. Publicamos autoras que abordem a mulheridade na prosa, na poesia ou na pesquisa, em perspectiva ampla. Além disso, as colaborações em nosso blog, aberto a escritoras e profissionais do livro em geral, e parcerias também são entre mulheres. Essa é a política que norteia nosso trabalho e nosso manifesto enquanto mulheres das Letras. Esperamos incentivar também o fortalecimento de redes de mulheres, o engajamento entre escritoras. Nós devemos crescer juntas.