REVOLUCIONANDO O MERCADO FINANCEIRO

REVOLUCIONANDO O MERCADO FINANCEIRO

Segundo Maria Luíza Filgueiras, jornalista especializada em economia e finanças, antigamente um grupo restrito de brasileiros tinha acesso a investimentos, concentrados em bancos, mas a entrada do empresário Guilherme Benchimol mudou completamente a dinâmica do mercado. A XP Investimentos, empresa criada por Benchimol, revolucionou o setor: tirou o investidor do banco para buscar rendimentos maiores, aumentou as opções, abriu espaço para aquele que, anteriormente, não conseguia fazer aporte ou sequer conhecia algo além de poupança e capitalização.
Após 107 horas de entrevistas com ex-sócios, advogados, gestores de fundos, executivos de bancos e com o próprio empresário, Maria Luíza Filgueiras escreveu o livro Na raça, que conta como a instituição se tornou referência no mercado financeiro. Para a LER&CIA, a jornalista compartilhou o que aprendeu após acompanhar a vida de Benchimol.

LER&CIA | Resumidamente, como podemos descrever o Guilherme Benchimol?

Maria Luíza Filgueiras | O Guilherme é obstinado. Não desiste fácil, detesta corpo mole, se dispõe a enfrentamentos para conduzir a empresa no caminho que acha correto. Ele não se acomoda. O Jorge Paulo Lemann diz, no prefácio de Na raça, que todo empreendedor é um fanático, e com certeza o Guilherme é. Aquela história de que, enquanto os outros descansam, ele trabalha, é superverdadeira. Pode ser recesso de fim de ano para boa parte da equipe, mas ele está lá na empresa. Por diversos entrevistados ele foi descrito como muito intenso e como um sujeito com alguma genialidade, ao conseguir tomar decisões muito rápidas, assertivas e dar ritmo acelerado à execução. Outra característica muito forte é que o Guilherme é um cara simples, não se deslumbra.

LER&CIA | Quais foram as principais dificuldades da carreira de Benchimol?

Maria Luíza Filgueiras | Ele tinha um desafio pessoal, no começo, de entender no que era bom de fato, quais eram seus diferenciais, e encontrar um propósito. Depois vieram os desafios de ser empreendedor, de fazer a empresa ficar de pé, de encontrar novos caminhos, de ser um líder. Tenho recebido mensagens em rede social de jovens em início de carreira, que têm muita ansiedade para já começar dando certo, que se confortaram de alguma forma com o livro, ao ver que o caminho de alguém que eles admiram não foi tão linear assim. Ele não era o melhor aluno ou o funcionário brilhante nas empresas em que trabalhou.

LER&CIA | Ao terminar Na raça, quais transformações o leitor pode iniciar em sua vida profissional?

Maria Luíza Filgueiras | Guilherme nunca teve medo do ridículo, de ter uma ideia ou uma decisão criticada, não mudou sua postura quando os grandes bancos e corretoras tradicionais debochavam do seu modelo de negócio. Ele de alguma forma se abasteceu dessas críticas, transformando-as em determinação. Essa pode ser uma lição relevante para perseguir e pensar fora da caixa na vida profissional e, no modelo da XP, saber também que a execução é tão ou mais importante que a ideia inicial.

LER&CIA | No livro, você ressalta que nada irritava mais Benchimol do que a percepção de que seus sócios não levavam a empresa tão a sério quanto ele. Em sua opinião, como empreendedores devem lidar com essa situação?

Maria Luíza Filgueiras | Acredito que seja criando ferramentas na empresa para isso e construindo uma cultura corporativa que alinhe os objetivos e a forma de conduzir as coisas. Na XP, isso foi feito pelo modelo de partnership, em que o executivo se torna sócio para estar mais alinhado e comprometido com o resultado. A cultura da XP foi forjada nesse contexto, em que os sócios não tinham plano B, estavam dedicados à companhia e principalmente a um propósito claro em comum. Para um empreendedor, significa também saber a hora certa de mexer na equipe, mudar executivos de posição, entender que talvez quem foi ideal para uma fase da companhia não se encaixa em outra fase, e saber motivar. O Guilherme cobra dos outros a dedicação e a intensidade que ele imprime à empresa – se isso fosse só discurso, com certeza seria mais difícil ter engajamento.

LER&CIA | Depois de anos acompanhando Guilherme Benchimol para registrar e contar sua história, quais lições você levou para sua própria vida?

Maria Luíza Filgueiras | Acho que a principal delas é resiliência. Achava uma palavra batida, mas o conceito fica muito claro ao longo dessa história e acabou se refletindo no processo do livro. A princípio, o Guilherme não queria participar desse livro-reportagem, achava cedo para essa narrativa. Foi com muita conversa e muita persistência, em quase oito meses, que isso aconteceu. Quando lhe entreguei o primeiro exemplar impresso pela editora, ele disse: “Poxa, Malu, parabéns pela resiliência, por não ter desistido do seu projeto!”. Foi só ali que minha ficha caiu, eu nem tinha me dado conta dessa lição ao longo de quase três anos de trabalho.