AS PIONEIRAS DA LITERATURA POR MONIQUE PORTELA

AS PIONEIRAS DA LITERATURA POR MONIQUE PORTELA

> Apesar de ocultadas da história, as mulheres sempre contribuíram com a construção da literatura universal, seja criando as bases para a tradição escrita a partir da oralidade, seja superando a precariedade da educação feminina para registrar suas experiências com o próprio punho.

Ao pensarmos sobre a história da literatura, muitas vezes caímos no mito de que a literatura foi criada por grandes homens. Dos cânones mais famosos às listas de indicados a prêmios, a presença de nomes femininos é muito pequena e assim parece ter sido desde o princípio. Mas isso não significa que as mulheres não produzam literatura desde sempre — diferentemente dos homens, elas apenas foram invisibilizadas.

Em diversos países, da Grécia Antiga às Américas, a maior parte das mulheres era analfabeta. Ainda assim, praticavam a vivência da linguagem oral para criar poesias, canções, fábulas e histórias, como é o caso das cantigas de amigo, um tipo de lírica medieval galego-portuguesa. “As cantigas de amigo são todas aparentemente escritas por homens, mas na verdade elas emulam modelos de cantos populares feitos por mulheres. É um homem tentando fazer uma obra literária para um público de elite a partir destes cantos femininos”, explica Guilherme Gontijo Flores, professor, pesquisador e tradutor de literatura antiga.

“Isso é incrível, porque garante que o tempo inteiro as mulheres estavam fazendo literatura, só que elas não tinham condições para assumir este lugar social, quer porque não
foram alfabetizadas, quer porque se elas escrevessem não conseguiriam publicar um livro com um nome feminino”, completa. A cultura oral como base para a tradição escrita,
portanto, é um conceito resgatado por diversos pesquisadores, como a holandesa Ria Lemaire, culminando na possibilidade de falar sobre uma literatura oral, arte que as mulheres sempre dominaram.

O ANONIMATO ESCONDE UMA MULHER
Considerando apenas a tradição escrita, ainda assim temos mulheres contribuindo desde períodos longínquos, mas como o domínio das letras requeria no mínimo a alfabetização, a escrita ficou reservada às mulheres que vinham de famílias ricas ou viviam em conventos. As que conseguiam superar o desafio da precariedade da educação tinham de encarar um sistema masculino que não enxergava com bons olhos o desenvolvimento intelectual das mulheres, cujos papéis sociais eram limitados à vida privada. Isso não as impediu de publicar — as instigou a burlarem o sistema.

“Boa parte das mulheres até o século XIX, inclusive no século XX, vão ser publicadas com pseudônimos. São poucos os casos das mulheres publicadas com seus nomes verdadeiros. A própria Mary Shelley só vai ter o nome dela na segunda edição de Frankenstein”, explica Emanuela Siqueira, pesquisadora, tradutora e uma das organizadoras do projeto Leia Mulheres, em Curitiba.

Infelizmente, a prática é comum até os dias atuais — uma das escritoras contemporâneas mais famosas, J. K. Rowling, adotou o pseudônimo neutro em pleno fim do século XX
para não denunciar seu gênero e, assim, garantir maior credibilidade no mercado literário para a saga Harry Potter.

Além dos pseudônimos, as mulheres publicavam também sob anonimato. Em Úrsula (1858), considerado o primeiro romance escrito por uma mulher brasileira, a autoria é atribuída a “uma maranhense”. A maranhense era a professora Maria Firmina dos Reis, filha de mãe branca e pai negro, que mais do que endossar o título de primeira romancista, inovou completamente ao escrever um texto abolicionista que dava voz aos escravizados. E quanto mais para trás olharmos na linha cronológica da história da literatura, mais incógnitas encontraremos.

De acordo com Guilherme Gontijo, muitos dos poemas da literatura provençal escritos em voz feminina não são assinados, enquanto a maior parte dos poemas com voz masculina o são. Já na poesia medieval, há muitos autores que os pesquisadores não conseguiram rastrear, então não se pode descartar a possibilidade de que haja mulheres
entre os nomes masculinos. O pseudônimo e o anonimato seriam uma forma de garantir, graças à ocultação do nome feminino, a sobrevivência e circulação da obra.

“Eu digo que sempre, sempre houve mulheres escrevendo. A gente ainda só não tem conhecimento suficiente”, reforça Emanuela Siqueira. “Muitas mulheres publicaram com nomes de homens e muitos homens publicaram, com seus nomes, romances escritos por suas companheiras, suas irmãs. E como dizia Virgínia Woolf: para ela, todo anônimo na história da humanidade era uma mulher.”

REDESCOBRINDO AS MULHERES NA HISTÓRIA
Principalmente a partir dos anos 70, muitos pesquisadores têm se debruçado sobre a história para repensar o papel da mulher na construção da literatura universal. A tarefa não é fácil — da literatura grega, por exemplo, praticamente nada sobreviveu. “É quase como se sobrevivessem uma ou duas mulheres por século”, relata Guilherme. Na literatura arcaica romana, Sulpícia foi a única mulher que teve seus versos conservados até os dias atuais. “Se você for olhar, quase nada da poesia grega arcaica sobreviveu em bom estado. Mas as mulheres sobreviveram ainda pior do que a média”, aponta o pesquisador.

No Brasil, é difícil encontrar otrabalho de escritoras até mesmo do século XX, como relata Milena Ribeiro Martins, professora de Literatura Brasileira e Teoria Literária na Universidade Federal do Paraná. “Pesquisar sobre mulheres do início do século XX é quase um trabalho de arqueologia. Há poucos dados e suas obras são raras, muito difíceis de serem recuperadas”, lamenta Milena, que hoje dirige pesquisas sobre autores e autoras da época.

Mas aos poucos, ao revisitar a história com olhos de quem sabe o que está procurando, as lacunas das contribuições femininas para a literatura começam a ser preenchidas. Para contribuir com este trabalho de valorização das vozes femininas na literatura, a revista LER&CIA publicará durante o ano uma série de perfis de escritoras femininas célebres de diversos períodos, que certamente merecem ser revisitadas. Acompanhe conosco e escolha a sua próxima leitura!