SEU LIXO, SUA RESPONSABILIDADE

SEU LIXO, SUA RESPONSABILIDADE

> Você se sentiu incomodado com o título dessa matéria? Segundo Cristal Muniz, autora do livro Uma vida sem lixo (Editora Alaúde), esse é o primeiro passo para reduzir a quantidade de resíduos que você produz no seu dia a dia

Cristal explica que somente quando assumimos a responsabilidade pelo lixo que produzimos é que nos tornamos conscientes da necessidade de diminuir nosso impacto no planeta. “Aprendemos que é só colocar o lixo num saquinho, levar para fora e pronto. Mas, mesmo quando você coloca o lixo para fora, ele continua sendo seu problema, é seu impacto e não passa a ser o problema de outra pessoa”, salienta.

Essa conscientização começou na vida da designer catarinense muito cedo, quando ainda na infância aprendeu a separar o lixo e não desperdiçar água. Mas foi em 2015 que se
viu profundamente incomodada com a quantidade de lixo que produzia morando sozinha. Ao conhecer o Movimento Lixo Zero, decidiu viver um ano sem produzir lixo. O ano acabou e o estilo de vida continuou.

Hoje ela mantém o blog Um ano sem lixo, no qual compartilha seu cotidiano e dicas para quem quer aderir ao movimento, e lançou recentemente o livro Uma vida sem lixo, que tem o objetivo de ser um verdadeiro guia para quem tem dúvidas de como colocar em prática a redução de resíduos.

Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Cristal conta do projeto, dá dicas e incentiva aqueles que desejam viver de maneira mais sustentável.

LER&CIA | Como você decidiu começar o seu projeto “um ano sem lixo”?
Cristal Muniz | Decidi começar o blog Um ano sem lixo quando conheci o Movimento Lixo Zero. Já tinha pensado em como meu lixo era um problema, era preocupada com a sustentabilidade, mas eu não encontrava soluções tão práticas para aplicar dentro da minha casa. O blog nasceu porque eu queria compartilhar um pouco de como seria essa minha jornada na tentativa de parar de produzir lixo.

Dentre as atitudes práticas do dia a dia quais foram as mais difíceis de colocar em ação quando você decidiu começar?
Sempre falo que nada foi muito difícil porque decidi começar uma coisa de cada vez. Foi um processo gradual de adaptação de algumas coisas. O mais difícil era encontrar as soluções que se aplicassem a mim. Decidi fazer um kit com todas as coisas que eu poderia usar ao comer fora, para estar sempre com isso à mão; é o meu kit “lixo zero”, com talheres e guardanapos sempre na bolsa.

Entre as mudanças que esse novo estilo de vida trouxe a você, quais foram as mais marcantes e positivas que te levaram a desejar continuar a viver dessa forma?
Algo que notei bem no começo é que passei a gastar menos dinheiro – o que parece pouco provável já que estamos acostumados a vincular coisas naturais e sustentáveis a itens de maior custo. Porém, minha estratégia foi usar tudo o que eu tinha em casa até o fim e depois inserir uma coisa nova por vez. Sendo assim, vi que eu comprava muita coisa antes que a anterior acabasse. Além disso, passei a pensar muito mais antes de comprar qualquer coisa. Eu desistia de comprar itens por ver que não era uma necessidade real.
Também passei a investir em produtos usados – roupas, eletrônicos – e comecei a viver gastando menos dinheiro.

Percebi ainda uma economia de tempo. Passei a gastar menos tempo procurando produtos em farmácia e mercado, já que faço compras de maneira muito focada. Gasto menos
tempo com a própria gestão do resíduo, pois não preciso levar lixo todo dia para a fora (levo os recicláveis uma vez por mês). Também passei a questionar atitudes que tinha por rotina e, assim, parei de perder tempo com aquilo que, na verdade, não me dava prazer – como fazer a unha, secar o cabelo artificialmente – para fazer o que realmente quero, como ler mais, por exemplo.

Cada um pode fazer ações para melhorar o mundo em que a gente está. Se você não consegue fazer uma coisa, tem outras 300 que podem ser feitas. Não é para se culpar pelo que não consegue, mas sempre buscar aquilo que você pode mudar.”

Você percebeu algum tipo de resistência de seus familiares e amigos próximos?
Acho que minha geração ouviu muito sobre sustentabilidade no colégio. Temos essa consciência de que precisamos cuidar do mundo, mas nunca fomos apresentados a soluções práticas e pontuais para isso. Assim, meus amigos sempre acharam muito bacana o projeto e muitos deles usam dicas e pedem sugestões de produtos e práticas para aplicarem no seu dia a dia.

Pelo fato de morar sozinha, não senti tanto o estranhamento do convívio próximo. Quando é algo social, às vezes é mais complicado o ato de recusar. Já aceitei presente só para
não causar desconforto, por exemplo. Mas, no geral, meu estilo de vida sempre foi bem aceito. No meu aniversário, eu sempre falo “se quiserem me dar algum presente, lembrem que não precisa de embalagem” [risos].

Em algum momento, você ficou “chata”, cobrando atitudes que começou a ter?
Não, porque acho que o pior que uma pessoa pode fazer em qualquer assunto é se meter na vida dos outros. Cada um sabe dos problemas e dilemas que tem e o quanto está disposto a fazer mudanças em sua própria vida. Eu nunca fui falar para as pessoas “o que você faz está errado” porque não existe o certo ou errado; existe o certo para você naquele momento. As pessoas têm contextos sociais e psicológicos diferentes. Não cabe a mim dizer o que precisa ser feito, cabe a mim responder perguntas e dar sugestões do que pode funcionar. E assim se constrói uma relação saudável entre as pessoas e um determinado assunto.

Você comentou em um vídeo recente que uma das atitudes essenciais, mas ao mesmo tempo mais difíceis, é o RECUSAR. Como foi para você colocar isso em prática no seu dia a dia?
Foi difícil. Acho que é uma das coisas mais complicadas porque envolve outras pessoas – e a gente nunca quer ser grosseiro ou rude. Então, achar um jeito de conseguir recusar as coisas explicando que não é por mal, mas que você não precisa daquilo é bem complicado. Eu comecei nos estabelecimentos comerciais, quando recusava as embalagens e afins. Precisava dizer que não queria os descartáveis. Suava frio no começo porque é sempre um incômodo você explicar por que quer ou não uma coisa. Isso foi melhorando
com a prática: quanto mais eu ia aos lugares, mais dava certo, mais me motivava…

Nas coisas mais pessoais, tento sempre explicar de alguma forma que tudo bem se a pessoa não quiser me dar um presente, por exemplo. Tenho o projeto como um álibi que ajuda a não tornar a conversa rude.

Quando começamos a avaliar nossa produção de lixo e o impacto que causamos no mundo, saímos de nossa zona de conforto. Qual é o primeiro passo para quem deseja ter uma vida com menos lixo?

Eu costumo dizer que a primeira coisa é você se responsabilizar pelos resíduos que gera. A gente aprendeu que é só colocar o lixo num saquinho, levar para fora e não se preocupar mais com isso. Mas se você começa a se responsabilizar por esse resíduo, passa a analisar item por item e pensa melhor na sua destinação. Essa responsabilização é o primeiro passo: “isso é meu problema”. Mesmo quando você coloca o lixo para fora, isso continua sendo seu problema, é seu impacto, não passa a ser o problema de outra pessoa. Essa é a primeira atitude a ser tomada.

De ações, sempre falo para a pessoa olhar os itens descartáveis que produz e começar a eliminar um por um de seu dia a dia. Escolhe uma coisa, pesquise, procure uma solução, adapte-se a essa solução e, quando você estiver completamente adaptado, vá para a próxima.

Precisamos fazer a correlação entre a nossa saúde o nosso bem-estar com o mundo lá fora. Preservar o meio ambiente não é coisa de ambientalista, é algo que deveria ser preocupação de todo mundo.”

Em sua opinião, quais são as maiores barreiras culturais e comportamentais que dificultam essas mudanças na sociedade brasileira?
Eu acredito que a gente tem um problema grave com mania de limpeza. Ficamos viciados em ter muito produto de limpeza – cada vez mais – e não nos damos conta de que é muita química que colocamos dentro de nossa casa, além dos resíduos que produzimos com as embalagens. Mas não consigo ver nada que impeça uma cultura sustentável de florescer. Quando falamos de preservar o meio ambiente, os oceanos, as florestas, estamos falando de preservar o mundo para nós. Precisamos fazer a correlação entre a nossa saúde o nosso bem-estar com o mundo lá fora. Preservar o meio ambiente não é coisa de ambientalista, é algo que deveria ser preocupação de todo mundo.

Quais foram seus objetivos quando decidiu escrever o livro Uma vida sem lixo?
Escrevi o livro a convite da própria editora para ser um guia bem completo, trazendo soluções práticas – como o material de apoio que não encontrei quando iniciei o projeto. As pessoas podem lê-lo do início ao fim, mas também serve como um guia para o futuro. Fiz a divisão por cômodos para que seja fácil de encontrar os tópicos, na hora da dúvida. O livro também tem o objetivo de incluir esse assunto na vida de pessoas que não procurariam essas informações na internet – um público diferente do que já tenho no mundo online, que não está nas minhas redes sociais.