Com dois filhos, Elisama Santos ensina sobre comunicação não violenta e outras atitudes essenciais para melhorar o relacionamento familiar.

Com dois filhos, Elisama Santos ensina sobre comunicação não violenta e outras atitudes essenciais para melhorar o relacionamento familiar.

COM RESPEITO E SEM VIOLÊNCIA: A CRIAÇÃO DE FILHOS QUE TRANSFORMA A SOCIEDADE
Por Melina Pockrandt

É comum ouvir nas rodas de conversa no mundo real e virtual a frase: “filhos não vêm com manual”. Sendo assim, pais e mães devem fazer o que acreditam ser o melhor para as crianças, já que não existe uma fórmula mágica para a criação de filhos. Tudo isso é verdade, porém, há um detalhe que não pode ser esquecido: estudos e pesquisas são realizados periodicamente e apresentam evidências científicas que não deveriam ser ignoradas na hora de escolher métodos ou estratégias de educação.

A velha máxima do “comi e não morri” – que se refere aos cuidados nutricionais mais rigorosos de pais e mães do século XXI em comparação a gerações anteriores – tem sido utilizada para diferentes áreas, como “apanhei e sobrevivi” ou “meus pais gritavam comigo e estou ótimo”. Questionando algumas estratégias da educação de filhos de gerações
passadas, estudiosos do comportamento humano têm mostrado como é possível criar crianças para se tornarem adultos emocionalmente saudáveis e resilientes utilizando
uma educação não violenta.
Elisama Santos, autora do livro Educação não violenta – Como estimular autoestima, autonomia, autodisciplina e resiliência em você e nas crianças, que esteve, no dia 8 de
março, na loja da Livrarias Curitibado Shopping Palladium, para lançar a obra, fala sobre o assunto em entrevista exclusiva à LER&CIA.

LER&CIA | Mesmo que os pais não batam nos filhos, a violência pode estar presente?
Elisama Santos | A nossa linguagem habitual é violenta. Estamos acostumados a estimular mudanças de comportamento utilizando a culpa, a vergonha e a dor como motivadores. E isso, por si só, é muito violento. “Se não tomar banho, ninguém vai querer ficar perto de você!”, “assim a mamãe fica triste”. Esses são exemplos corriqueiros do quanto o nosso jeito de educar foca na dor e não no autodesenvolvimento.

Quais são as principais bases da educação não violenta?
A base é a conexão. O desejo genuíno de se conectar a si e aos filhos, de escutar os nossos sentimentos e necessidades e também os desejos e necessidades deles, buscando o equilíbrio na relação familiar.

O que é e como praticar no dia a dia a comunicação não violenta?
A comunicação não violenta é um método de vida, uma forma mais compassiva de enxergar a si e o outro. Podemos praticá-la com o exercício diário de sairmos dos
nossos julgamentos e nos concentrarmos na realidade em si e em como ela reverbera em nós. Já reparou que somos hábeis em rotular o comportamento do outro,
mas pouco capazes de descrever o que acontece dentro de nós? Eis o exercício de não violência mais urgente e também mais difícil.

Educar de maneira não violenta é um exercício de autoconhecimento, de revisitar-se diariamente.”

Elisama Santos

Você enfrentou resistência quando começou a falar sobre esse assunto?
Quebrar paradigmas levanta muitas resistências. As pessoas conhecem pouco sobre o tema, mas já têm uma opinião formada; acreditam que quando abrimos mão das punições seremos permissivos. Sempre digo que entre o 8 e o 80 existem 72 opções.

Em sua opinião, quais são as principais causas dessa resistência?
Aceitar que bater em uma criança é um ato de violência é também aceitar que fomos violentados em nossas infâncias. Não digo com isso que os nossos pais foram insuficientes em sua missão, eles fizeram o melhor que podiam com as ferramentas que tinham. Mas foram violentos de diversas formas. Educar de maneira não violenta é um exercício de autoconhecimento, de revisitar-se diariamente e isso dói porque nos faz olhar com responsabilidade para coisas das quais sempre fugimos.

Quais heranças recebidas das gerações anteriores mais prejudicam na criação dos filhos?
A maior queixa que escuto dos pais é que não conseguem se controlar quando estão irritados. Gritam, batem. Se fôssemos ensinados a
lidar com as nossas emoções desde crianças, não estaríamos hoje mais hábeis em conter as nossas feras? Será que não seríamos menos reativos? O maior malefício
da educação tradicional é que não nos educa emocionalmente. Somos analfabetos emocionais.

Como mãe de dois filhos, você passa por momentos em que as crianças a “tiram do sério”? Como consegue lidar com as situações mais desafiadoras?
Passei e passo. Meus filhos são crianças normais, que têm atitudes de crianças, enquanto a sociedade me cobra produção, agilidade e perfeição. Aprender a reconhecer minhas incapacidades momentâneas me faz mais capaz de lidar com elas.

Quais são os principais benefícios – para crianças e pais – de praticar a educação não violenta?
Os benefícios são inúmeros. No campo pessoal, a criança cresce consciente de si, de suas potências e de como lidar com as suas limitações. No interpessoal, aprende habilidades de relacionamento essenciais para um mundo melhor: empatia, negociação, resolução de problemas. E no sistêmico, a sociedade se beneficia de receber seres mais conscientes do seu papel na comunidade.

COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA

  1. A comunicação não violenta começa pelas emoções e decisõesracionais: o comunicador deve partir de empatia e compaixão decidindoque o objetivo daquele diálogo é a resolução de um problema.
  2. Para que a comunicação aconteça de maneira não violenta, é necessário observar os fatos e não fazer julgamentos sobre eles. Por exemplo, ao invés de falar para a criança “você é preguiçosa mesmo, olhe sua bagunça pela casa”, aponte o fato “vi que seus brinquedos estão espalhados”.
  3. Observado o fato, explique como a situação afeta você (identifique suas emoções e necessidades) e tente entender o sentimento da outra pessoa em relação a esse fato. “Eu fico irritada ao ver os brinquedos espalhados, pois sinto que você não está me ouvindo e me sinto sobrecarregada com as tarefas de organização. Você está cansado demais para organizar suas coisas nesse momento?”
  4. Ouça com empatia! Permita que a criança fale como está se sentindo, mesmo que não seja agradável para você. Coloque-se no lugar dela, pensando como poderia ser, no exemplo mencionado, desagradável parar o que está fazendo para arrumar os brinquedos. “Eu vejo que você está desanimado para organizar esses brinquedos agora.”
  5. Expresse sua necessidade – que você identificou anteriormente – com um pedido claro, citando ações concretas e sempre com uma linguagem positiva. Entender o sentimento
    do outro não significa aceitar uma atitude inadequada: “Preciso de sua cooperação, ou seja, que organize seus brinquedos. Você pode começar colocando as bolas dentro da
    caixa.” Use um tom de voz calmo, não faça chantagens e não grite.