FINANÇAS DESCOMPLICADAS

FINANÇAS DESCOMPLICADAS

Edição 88 da Revista LER & CIA

Foi-se o tempo do “economiquês”. Hoje, planejamento financeiro virou tema para se aprender em casa, com vídeos e livros feitos
por especialistas que são gente como a gente. A LER&CIA entrevistou duas educadoras financeiras que, com linguagem simples, desmistificam que poupar e investir são coisas para quem tem muito dinheiro. Confira:

Maiara Xavier é educadora financeira, blogueira, youtuber e autora do livro A rica simplicidade.

LER&CIA | Quais os primeiros passos para começar a se organizar financeiramente?
A gente não organiza o que não conhece, com as finanças é a mesma coisa. Para saber o que preciso fazer em relação ao meu dinheiro, preciso
em primeiro lugar conhecer minha realidade, fazer aquele diagnóstico de respeito, revisar todas as contas bancárias, faturas de cartões de crédito, identificar todas as minhas fontes de renda, os valores de cada uma delas, reconhecer os hábitos de consumo, anotar todos os gastos diários até ter a resposta desta pergunta “Para onde vai o meu dinheiro?” na ponta da língua. Devemos estar no controle da nossa vida financeira, sabendo exatamente tudo que está acontecendo.

LER&CIA | Depois de descobrir para onde está indo o dinheiro, qual o próximo passo para quem deseja poupar?

Identificar qual o estilo de vida que deseja viver, as coisas que gosta de fazer e gostaria de fazer mais. Começar a entender o que de fato o satisfaz e listar os objetivos. Depois é começar a guardar dinheiro para que ele possa ser a ferramenta que permitirá que essa vida se torne realidade. Com esses objetivos bem claros, logo que o salário cair na conta é importante separar o valor que será investido todos os meses. Um débito automático ajuda muito nisso.

LER&CIA |O primeiro objetivo do poupar deve ser a construção de uma reserva de emergência? O que é e qual a importância disso?

A reserva é fundamental para quem deseja construir uma vida financeira saudável e estruturada, pois ela
serve como um seguro do seu patrimônio. Por isso, deve ser prioridade  logo depois de organizar o orçamento mensal. Sabemos que imprevistos acontecem. Então, se não temos uma reserva e o carro ou a máquina de lavar quebra, esse custo inesperado pode não só prejudicar nosso orçamento mensal como também interferir nos sonhos que estamos nos planejando para realizar.

LER&CIA |É preciso poupar, mas passar longe da poupança. É isso mesmo, Maiara?

A poupança se tornou uma referência para o brasileiro, por ter sido por muito tempo o investimento mais simples do mercado. As outras opções eram muito complicadas, e o que é difícil de entender dificilmente atrai interesse. Mas as coisas mudaram e continuam mudando para melhor atender o pequeno investidor, e a poupança não é a melhor opção para quem quer levar a sério seus investimentos. Ela oferece uma rentabilidade baixa que até perde para a inflação. Ou seja, o seu dinheiro perde o valor de compra com o tempo se deixado na poupança. Com a mesma simplicidade encontramos vários outros tipos de investimentos que oferecem maiores retornos.

Patrícia Lages é uma empreendedora multitarefa: jornalista, especialista em finanças, blogueira, youtuber e autora de quatro best-sellers, incluindo a série Bolsa blindada.

Quais são os maiores adversários da estabilidade financeira? A falta de controle é o maior deles, pois não há como manter a estabilidade sem saber quanto se recebe e  quanto se gasta. Controle financeiro consiste justamente em equilibrar o que entra e o que sai e se não há esse acompanhamento, não é possível haver estabilidade. Por isso, o primeiro passo é estabelecer algum tipo de controle, ainda que seja anotando em uma folha de papel.

Quais erros simples as pessoas mais cometem diariamente que as fazem sair do
planejamento? 

Primeiramente é não ter planejamento. A maioria das pessoas acha que planejar é “engessar” a vida, mas é exatamente o contrário. Outro erro comum é não se atentar para o que chamamos de gastos arbitrários, que são aquelas pequenas despesas do dia a dia que podem atingir altos valores ao longo do ano. Lembrando que cinco reais por dia representam 1.800 reais por ano. Uma dica simples é anotar cada gasto, ainda que pequeno, para perceber seu comportamento como consumidor e decidir se deve diminuir algum gasto ou até mesmo cortar o que seja considerado desperdício.

O cartão de crédito é vilão ou mocinho?

Se usado da maneira correta, ou seja, como um gestor de gastos, ele pode ser mocinho. Isso porque é mais fácil reunir várias despesas com uma única data de pagamento e ainda obter vantagens em programas de fidelidade. Mas quem usa o cartão como um agente de empréstimos está alimentando um vilão implacável. O cartão não é uma forma de comprar sem ter dinheiro, mas é dessa maneira que muita gente usa e, por isso, acaba se prejudicando com os altos juros.

Você diz que não é preciso viver à base pão e água, mas sim ter responsabilidade e disciplina. Ou seja, existe espaço para pequenos mimos?
Quando se tem uma vida financeira equilibrada há espaço para tudo. A questão é que há momentos em que precisamos escolher entre o que queremos agora e o que desejamos para o futuro. Sempre teremos de sacrificar algo menor para obtermos algo maior e é com esse equilíbrio que devemos desenvolver nossos objetivos. Já tive de viver um bom tempo sem mimos porque estava focada em um objetivo maior e, no fim das contas, depois de alcançá-lo, pude ter mais mimos do que aqueles que tive que abrir mão.

Muitos acreditam que ser estável é ter um emprego com bom salário e vários benefícios, mas você acha que isso é ilusório. Por quê?

Pelo simples fato de que a pessoa pode perder 100% de tudo isso da noite para o dia. Em caso de demissão, onde fica a estabilidade? Quando o seu destino está fora das suas próprias mãos, a sua estabilidade é ilusória. É difícil encarar essa realidade, mas os tempos mudaram e não vivemos mais para trabalhar 30 anos na mesma empresa ou morarmos na mesma casa a vida inteira. Tudo é muito inconstante e, por consequência, instável. Portanto, quanto mais a pessoa for responsável pela sua própria estabilidade, melhor, pois seu destino dependerá dela mesma.