NEY, POR ELE MESMO

NEY, POR ELE MESMO

Edição 88 da Revista LER & CIA

Com 46 anos de carreira e uma vida dedicada à defesa da liberdade, o cantor Ney Matogrosso é considerado um dos maiores artistas do país de todos os tempos. Transgressor por natureza, hoje, aos 77 anos, tem em sua fala a calma que só a maturidade traz, mas segue com a mesma força das primeiras vezes que subiu aos palcos, pronto para desafiar regras.

A infância de conflitos com o pai, o sucesso meteórico nas artes, o envolvimento com temas polêmicos.
Diversas são as passagens da vida do cantor e compositor Ney Matogrosso relembradas na obra Vira-lata de raça, lançada no final de 2018 pela Editora Tordesilhas. Baseada em entrevistas de diversas épocas, que foram compiladas e atualizadas, a obra é assinada pelo escritor e poeta Ramon Nunes Mello.

As relações, desafios e conquistas da vida do artista também serão mostrados em outra obra, que está sendo escrita pelo jornalista Júlio Maria e deve ser lançada ainda este ano. Ela está sendo chamada de “biografia não autorizada”. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Ney Matogrosso falou mais sobre os livros, música, arte e vida.

LER&CIA | Você tem 46 anos de carreira. Olhando para trás, do que você tem mais orgulho em sua trajetória?

Ney Matogrosso | De tudo. Acho que, com linhas tortas, caminhei reto. Olhando para frente, tem alguma coisa que você ainda tenha vontade de fazer? Não fico assim determinando o próximo passo, mas sempre surge. Na hora que isso se apresentar, vou entender. Não é uma coisa que fico pensando, é no momento que entra a ideia.

LER&CIA |  Você sempre foi performático, com uma presença forte no palco. O que isso significa para você?

Só sei ser assim. Vim do teatro e todas as peças que fiz eram musicais em que precisava cantar, dançar e me caracterizar de diversos personagens. E foi isso que trouxe para a música. O fato de entrar “mascarado” me deu uma coragem de exposição que não achava que fosse
capaz. Não era eu, era um personagem.

LER&CIA |  Quais os principais aprendizados do começo da sua carreira na música, ainda com a banda Secos & Molhados?

Naquela época tudo era intuitivo, como o meu modo de me mexer no palco. Com o passar dos anos, fui elaborando melhor as coisas, entendendo que posso usar meu corpo sim, embora não seja bailarino. Percebi que existe uma maneira original que posso apresentar, que é a minha. Isso
engloba várias formas de arte, de cantar, de dançar, de interpretar. Sou um intérprete, então coloquei tudo à disposição desse lado.

LER&CIA |  E qual o papel da arte em sua vida?
A única coisa pela qual me interessei a vida inteira, desde criancinha, sempre foi a arte. Acho que é algo muito importante e que todas as profissões deveriam se dedicar um pouquinho a ela. Só a arte nos dá uma amplidão na compreensão de tudo.

LER&CIA |  A luta pela liberdade e pelo respeito às diferenças também sempre fez parte da sua vida. Como você vê a função dos artistas nessas discussões?

Não considero que seja função dos artistas, mas acho que é a minha. Agora, penso que quem se interessar por essa liberdade, também tem que se expressar. Mas não acho que seja uma obrigação de todos.

LER&CIA |  Este ano, você estreou um show para celebrar seus 46 anos de carreira. Como foi esse projeto?

Não tive intenção de trazer nenhum compositor inédito, porque foi o que
fiz no último show. Nesse, quis cantar apenas tudo o que gosto. Teve apenas uma música inédita, mas com um repertório que gosto, com coisas que já cantei e outras que não tinha voltado a cantar. É mais um repertório de muitas pessoas, tem música do Chico [Buarque], do Caetano [Veloso], do Milton [Nascimento] e de outros nomes importantes.

LER&CIA |  Olhando esta nova geração de cantores, tem algum com quem você se identifica?

Que eu me veja, não. Mas acho que tem uma geração de artistas que claramente são influenciados pelo que fiz. Digo em termos de comportamento e não de música. E acho que isso até demorou. Eu via isso lá no Cazuza, no Paulo Ricardo, mas agora vejo mais explicitamente. Não que estejam me copiando, mas acredito que posso ser uma das influências.

LER&CIA |  Falando do livro, aquele lançado no final do ano passado e que conta sua história, é uma autobiografia?

Não exatamente. Ele foi baseado em entrevistas antigas e também algumas novas, que foram necessárias para complementar e atualizar minha opinião sobre alguns temas.

LER&CIA |  Ao final, você se viu representado?

Acho que um livro não representa a vida de ninguém, assim como um filme ou uma peça de teatro também não. Tem uma síntese, mas não é a vida, que é muito maior do que qualquer uma dessas coisas.

LER&CIA |  Você leu o livro depois de pronto? Destaca alguma parte?

Aquilo tudo para mim não é novidade, só que ali está concentrado. São assuntos dos quais falei minha vida inteira, coisas que sempre estiveram presentes e que chocavam muito as pessoas em determinadas épocas. E hoje em dia eu não tenho mais essa intenção [de chocar]. Antes eu tinha, porque surgi no auge de uma ditadura militar. Ninguém podia expressar um pensamento independente. Então, era uma forma de conter os ímpetos contra mim. Eu já entrava barbarizando e quando eu via alguém impactado pensava: “então agora você vai se espantar” (risos).

LER&CIA | Está em produção outra biografia sua, não autorizada. Você está participando?

Tive uma conversa com o autor [Julio Maria], e disse “tudo bem, não posso te impedir”, porque agora existe uma lei que diz isso. Mas pedi para ele tomar cuidado para não trazer mentira porque as pessoas falam muita loucura. Já vi coisas escritas a meu respeito que não eram verdade. Ele está conversando comigo e me pergunta algumas coisas, mas não estou censurando ou controlando nada.

LER&CIA | E o que você espera dessa obra?

Espero que seja uma biografia mesmo, porque tive uma aos 50 anos (Um cara meio estranho, de Denise Pires Vaz), além de outros textos que saíram sobre mim, mas que não foram biografias. Este livro, talvez, seja a primeira propriamente dita. O autor foi atrás da minha família, falou com um irmão que não vejo há anos e que mora no Mato Grosso. Acho que vai ser realmente uma biografia bem abrangente.