PELO DIREITO DE SER CURIOSO

PELO DIREITO DE SER CURIOSO

Edição 88 da Revista LER & CIA

Se você gosta de montar e desmontar, abrir eletrônicos para ver como eles funcionam por dentro, misturar ingredientes para ver o que acontece, imaginar o porquê as coisas são do jeito que são, está comprovado: você é um curioso. E como prêmio você ganha uma habilidade que será muito útil em toda a sua vida: aprender cada vez mais.

É exatamente essa a proposta do casal Iberê Thenório e Mariana Fulfaro, os criadores do maior canal do YouTube de Ciência e Tecnologia em língua portuguesa do mundo, segundo o o Guinness Book. O canal Manual do Mundo concentra um vasto repertório que vai desde brincadeiras e curiosidades até experimentos e tutoriais. O que não falta, claro, é muito conteúdo científico. Prova disso é que, em 2019, eles ganharam, pelo segundo ano consecutivo, o Prêmio Canaltech como “Canal de Ciência do ano” por voto popular.

Com mais de 2 bilhões de visualizações, 1.500 vídeos publicados e 12 milhões de inscritos, o sucesso do Manual do Mundo é resultado da vontade dos fundadores de “abrir as portas da percepção e fazer jovens e adultos se sentirem mais confiantes por terem mais conhecimento”. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, eles falam sobre a curiosidade que é inerente à infância e reforçam a importância de experimentar, perguntar e não ter medo de errar.

 LER&CIA | Quando crianças, vocês já eram bastante curiosos?

Mariana  Fulfaro | Sim (risos), éramos espoletas, né? Somos do interior e lá é um pouco diferente. Hoje, moramos em São Paulo e as coisas aqui são bem distintas da experiência que tivemos na infância, nos anos 1980. Aqui, as crianças crescem fechadas, dentro das casas e das escolas. Eu brincava na rua, no sítio, na terra, de noite, era outra pegada. Cresci brincando muito com os vizinhos também. Meu pai tinha – tem até hoje – uma oficina de relógio. Então, eu cresci consertando e desmontando. Era aquela coisa bem do ócio, em que você está lá e não tem o que fazer e vai descobrindo o que consegue inventar com os objetos que tem em volta. O Iberê também, ele cresceu no sítio, subindo em árvore, aprontando na terra, nadando no rio, se escondendo no mato. Foram infâncias bem ricas.

LER & CIA |  Para vocês, o sucesso do canal está também relacionado a essa vontade de saber sempre mais, que faz parte do ser humano?

Eu acho que sim porque a ideia do Manual do Mundo é compartilhar conhecimento para que as pessoas se sintam empoderadas e encorajadas a fazer as coisas a partir daquilo que elas sabem. Além disso, estimulamos muito que as pessoas façam as coisas juntas, que se encontrem para construir algo ou mesmo para assistir aos vídeos. Quando fazemos eventos com os fãs, vemos avô com neto, pais com filhos, e isso é muito legal porque percebemos que conseguimos juntar as famílias para fazer os experimentos. Então, não apenas conseguimos despertar essa curiosidade nas pessoas e empoderar, que é nosso objetivo, mas também fortalecer os laços de família e de amizades, que é algo que também está muito vulnerável hoje em dia.

LER & CIA |  Vocês acham que as crianças desta geração sentem os efeitos dessa nova dinâmica das grandes cidades, em que ficam mais passivas?

É estranho, as crianças hoje têm muita energia, algumas até precisam tomar medicação para acalmar. Mas será que muitos desses casos de excesso de energia, não todos claro, se essa criança pudesse sair brincar, jogar bola na rua, se ela tivesse espaço para expandir, para gastar toda energia, não morasse em cubículos, será que seriam tão angustiadas? Será que ficariam tanto no celular? Não sei. Temos uma filha de 4 anos e uma bebê e, com a maior, estamos sempre a estimulando a brincar, a sair passear, vamos muito para o interior para que ela possa brincar mais livre. É preciso buscar formas da criança extravasar essa energia acumulada.

LER & CIA |  Com isso, o canal acaba sendo um incentivador desse lado de brincar e experimentar?

Exatamente. Os vídeos não são algo que as pessoas devam apenas sentar e assistir. Porque hoje temos alguns vídeos, que as crianças menores gostam muito inclusive, de unboxing ou de outras pessoas brincando. E as crianças ficam ali, assistindo o outro brincar e acham que estão brincando também, mas não estão, elas estão totalmente passivas naquela situação. Então, a gente sempre estimula que as pessoas reproduzam os experimentos em casa.

LER & CIA |  Quando começaram o canal, em 2008, qual era o objetivo? E quando começou a se tornar a ocupação de vocês?

O Manual do Mundo começou com nosso repertório pessoal. Viemos para São Paulo estudar e percebemos que muitas das coisas que aprendemos lá no interior, as pessoas daqui não sabiam. Éramos muito demandados pelos amigos para ajudar em coisas práticas, como pintar casa e consertar objetos. Resolvemos, então, criar uns vídeos para a galera aprender a fazer essas coisas. Assim, surgiu o Manual do Mundo, que começou como um portal onde subíamos os vídeos e ali fomos colocando nosso repertório pessoal, mas acabou muito rápido, né? Então, começamos a pesquisar em livros e as pessoas passaram a mandar dicas e sugestões de pautas. Nesse momento virou negócio. E é assim até hoje, pesquisamos e criamos mais e mais conteúdo, tanto que já são mais de 1.500 vídeos publicados.

LER & CIA |  E quais são os temas que mais geram interesse do público?

Isso muda bastante. Já tivemos época em que a galera estava mais pirada em experiências, outras em que estavam mais ligadas em mágicas. Hoje, o que está mais em voga é o quadro boravê, que é uma série em que mostramos lugares que as pessoas não têm acesso e têm curiosidade, como uma fábrica de bolinha de gude ou de caixão. O legal é que temos conteúdo que atingem pessoas de diferentes idades. Nosso público-alvo é o jovem adulto, o pessoal de 24-25 anos. Mas esse cara tem vergonha de falar que não sabe, então nos comentários das redes sociais ele não aparece muito, quem interage são as crianças. Elas são muito engajadas no Manual do Mundo porque não têm vergonha de falar que não sabem, de aprender, de pedir dicas.

Veja o experimento

LER & CIA |  Qual experimento vocês mais gostaram de fazer? Por quê?

Tem um experimento que fizemos há muitos anos que era um microscópio usando seringa. Você colocava uma gotinha de água suja na ponta da seringa, usava uma câmera e projetava isso na parede da sala. É um experimento muito fácil de fazer em casa e o resultado é incrível. Você consegue ver os bichinhos que estão na água suja, é maravilhoso.

LER & CIA |  E existe alguma coisa que vocês têm vontade de fazer, mas que ainda não fizeram?

Sim. Temos um projeto de uma série de experimentos gigantes que ainda não conseguimos tirar do papel, mas espero que em breve dê certo. Embora a gente já conte com uma equipe de quinze pessoas, esse projeto é algo que precisa de uma produção ainda maior.

LER & CIA |  O livro 50 experimentos para fazer em casa é um manual de brincar e experimentar. O que o leitor irá encontrar que não tem no canal?

No livro, o leitor vai encontrar experimentos que só tem ali e que são muito fáceis de fazer em grupo. Mas acho que a grande diferença de você fazer experimentos pelo livro é que ali a questão da experiência científica fica mais apurada. Tem o fator surpresa, você vai exercitar mesmo, é uma questão de teste. Quando você não vê o outro fazendo, fica mais livre para seguir o seu próprio processo, é outra proposta porque você não sabe o que esperar. Quando está em grupo, tem também a experiencia de dividir as tarefas e dar orientações.

LER & CIA |  Como vocês fizeram a pesquisa e selecionaram as perguntas para o livro Dúvida cruel – 80 respostas para as perguntas mais cabeludas?

Pretendem lançar alguma nova obra? No livro, respondemos dúvidas cruéis como “por que a gente tem que trocar a toalha a cada três dias se só a usamos quando estamos bem limpos” ou “como a minhoca consegue cavar a terra se ela é mole”. Os temas surgiram quando pedimos às pessoas que nos acompanham para enviarem sugestões. Então, fizemos uma seleção e enviamos para três especialistas diferentes responderem e conferirem. Isso porque queríamos que as respostas fossem bem explicadas, é uma superresponsabilidade. Também incluímos referências científicas em todas as questões. O livro é bem fundamentado, dá para usar em sala de aula, em brincadeiras, em cursos, sem o menor medo. Sobre os próximos projetos, ainda esse ano teremos outro livro, que tem nome provisório de O grande manual de Ciências do Manual do Mundo. A ideia é trazer pequenos conceitos de ciências, como o formato da Terra, explicar o solstício, o equinócio, como o arco-íris é formado, como funciona a refração da luz etc. Serão pequenos conceitos, uma coisa básica para introduzir o pessoal ao mundo das ciências. A expectativa é que saia até o final de novembro.

Conheça
o canal
Manual do Mundo

LER & CIA |  O que gostariam de deixar como mensagem para as crianças?

As crianças não devem ter medo de errar, porque todo mundo erra. E não devem nunca deixar de ser curiosas. Quando somos adultos, começamos a tolher uma criança que pergunta muito, então desde pequena ela é reprimida. É importante que ela não tenha medo de continuar questionando, querendo saber de tudo, porque isso vai mudar a vida dela.